Temos de continuar com a nossa vida e não sucumbir ao medo

24 de maio de 2017

Eu sempre fui uma pessoa extremamente emotiva. E sempre vi isso como um defeito em mim. Choro com tudo. Por tudo. E em todas as situações. E sempre o vi como uma fraqueza. Algo em que diziam: pronto, lá vai ela começar a chorar. Choro se me irritam. Choro quando estou frustrada. Choro quando estou feliz. Choro quando me emociono. Choro com coisas que nem se passam comigo. Choro quando vou no carro e vejo um acidente. Fico ali a fungar e a limpar o ranho às mangas da camisola. Choro com todos os vídeos de crianças, animais e velhinhos no Facebook. Quando trabalhava na redação, os colegas estavam constantemente a mandar-me vídeos só para se rirem quando começava a tremer o queixo e a ficar com os olhos molhados. Choro até a ver Harry Potter, por amor de Deus. Quão mais emotiva posso ser?

Demorei 31 anos para deixar de o ver como uma fraqueza e passar a interpretá-lo com uma capacidade de expressar as minhas emoções de uma forma intensa. E isto é bom, claro. Mas também me faz sentir tudo à minha volta de uma forma violenta e profunda.

Hoje de manhã ia no carro, passei no Viaduto Duarte Pacheco e estava todo um aparato com um carro parado, INEM, bombeiros e estavam a tentar reanimar uma senhora. Deu-me a sensação de que se sentiu mal no carro, parou no meio do viaduto e pediu ajuda. Fiquei imediatamente em lágrimas e com o peito pesado. Talvez porque tinha acabado de ouvir as notícias do atentado em Manchester no concerto de Ariana Grande.

E é exatamente por isso que estou a escrever isto hoje. O mundo à nossa volta está a ruir. É impossível não viver em medo constante - eu vivo. Se vou a um festival, procuro saídas de emergência só para o caso de acontecer alguma coisa. Se estou no cinema, tento ficar ao pé da porta. Se ando no meio de Lisboa em zonas movimentadas, dou por mim a olhar para o lado e a observar as pessoas. Se vou no metro, acabo por pensar nestas coisas mais vezes do que as que gosto de admitir. E isto é atroz. Isto faz-nos viver constantemente em ansiedade social porque o medo não tem cara e pode estar à espreita em qualquer lado. Até num concerto.

Quando tinha 23 anos, trabalhei na pediatria do IPO de Lisboa. E uma das primeiras coisas que me disseram foi que tinha de aprender a desligar o chip das emoções. E não deixar que a vida das outras pessoas entrasse comigo em casa. Caso contrário não ia conseguir fazer até as coisas mais banais como ir às compras, sair à noite, ir a um concerto... porque ia estar sempre a comparar a minha vida com a das pessoas (doentes) com quem passava a semana. E isto é difícil. Talvez tenha sido das coisas mais difíceis que fiz nada vida. Sair porta fora e esquecer a doença, a infelicidade e os problemas dos outros e continuar com a minha vidinha como se nada fosse.

Mas a verdade é que isto pode soar desagradável e frio mas é exactamente a única coisa que podemos fazer. E é o que, neste momento, tento fazer no meu dia-a-dia. Há guerra. Há Trump. Há armas nucleares. Há atentados. Há Daesh. Há pobreza. Há ameaças de bombas. Há terramotos e tsunamis. Há doenças. Há tudo à nossa volta. E todas as manhãs temos de conseguir levantar-nos da cama e não deixar que o medo desta merda toda - e muito mais - nos faça sucumbir. Porque eu própria tenho dias em que quase me deixo vencer. Perdemos um pouco a motivação. Tudo à nossa volta nos parece cinzento. Mas, por outro lado, também passamos a relativizar as coisas. E a dar a cada problema a carga emocional que ele merece.

Esta semana, um amigo teve um acidente e destruiu o carro da empresa. Felizmente, não foi nada de grave mas ele desmaiou e só acordou no hospital. Depois de todos os exames feitos, foi para casa com recomendação de algum repouso. Na manhã seguinte, a empresa tinha-lhe deixado um novo carro à porta de casa e a agenda para o resto da semana. E ele? Bem, ele foi trabalhar. E eu entendo porque o fez. Eu também já o fiz no passado. Mas cheguei a uma altura na vida em que nenhum trabalho, nenhum patrão nem nenhuma profissão vale mais que a minha saúde, a minha vida e o meu bem-estar.

É nestas alturas que penso: porra, a vida é curta para caraças. Temos guerras. Temos Trump. Temos armas nucleares. Temos atentados... Temos tudo aquilo que já disse lá em cima. Então porque vamos destruir mais um bocado o (pouco? muito) tempo que temos?

Temos de continuar com a nossa vida... porque (é clichê, eu sei) não sabemos o dia de amanhã. Temos de amar. Temos de dançar. Temos de cantar. Temos de viver. Temos de comer. Temos de viajar. Temos de estar com os nossos amigos. Temos de cuidar da nossa família. Temos de gostar. Temos de trabalhar também, é certo. Mas temos de trabalhar em algo que nos faça feliz. Temos de mostrar a toda a merda que está à nossa volta que continuamos a querer viver.

E temos de deixar o medo lá fora. Não de casa - porque ele está na rua e em todo o lado - mas da nossa vida.

9 comentários

  1. Adorei o texto. Uma perspectiva um pouquinho diferente do medo sobre o qual também eu tenho escrito, mas no fundo super alinhada. O medo (os vários tipos de medo) nunca vai passar, mas é preciso fazer e viver mesmo assim!

    ResponderEliminar
  2. Identifico-me muito com este texto. Tanto na questão da emotividade - também tenho lágrima fácil - como no medo. Ainda ontem estava a matutar se queria mesmo ir ao Alive. Começa a ser assustador sair de casa, o mundo está demasiado negro para que nos sintamos seguros seja onde for. Mas também não podemos paralisar, caso contrário...bem, não andamos cá a fazer nada! Mais vale viver.

    Jiji

    ResponderEliminar
  3. Não diria melhor! E tal como tu, também eu vivo com as emoções à flor da pele.. e estou neste momento a tentar saber desligar de tudo isto para não dar em doida. Viver com medo não é viver e nós, felizmente, ainda vamos tendo a capacidade de o vencer! *

    Beijocas,
    ANDA DAÍ!

    ResponderEliminar
  4. Obrigada pela partilha. Revejo-me mesmo neste post, sou uma "chorona", no entanto casa vez revejo-me mais nas tuas palavras, no sentido de vivermos, de nos valorizarmos. Vou embarcar numa nova aventura em breve, abdiquei do meu trabalho para ir para o desconhecido, para me conhecer e para me valorizar enquanto ser humano. Sigo o teu site e adoro :)

    ResponderEliminar
  5. Também choro por tudo e por nada que desgraça. Ao longo da minha licenciatura de educação e intervenção comunitária aprendi mecanismos para conseguir criar uma barreira invisível entre a vida pessoal e profissional, afinal de contas iria trabalhar com os problemas da sociedade. Engraçado porque apercebi me que aqui não choro e até consigo ser forte e transmitir tranquilidade. Até mesmo situações trágicas que temos dois segundos para pensar antes de agir, podia chorar mas não, consigo fazer alguma coisa para solucionar o assunto. Agora frustração, velhotes de mão dada na rua, um final triste num filme, não dá são lágrimas imparaveis. Às vezes vejo dois irmãos a brincarem e já estou a chorar. Em publico torna se um pouco constrangedor. I feel your pain =P

    Quanto ao resto olha Lena, é isso, eu tento meter o medo numa gaveta do cérebro e aproveitar cada momento do dia. Por isso mesmo já não me dou ao trabalho de trabalhar em algo que não me motiva ou passar tempo com pessoas que transmitem pouco ou nada. Os trinta também ajudam aqui. E tento espalhar a mensagem, acho essa parte importante. Por vezes sou um bocado cruel quando digo aos meus amigos que a guerra está iminente ou até mesmo uma catástrofe natural vai acabar com isto tudo. Eles dizem logo para sair daquela negatividade mas não será antes uma realidade a que toda a gente quer fugir? Ao invés de divertirmo-nos enquanto podemos e somos livres porquê massacrar outras pessoas com mesquinhisses? Porquê cada um a olhar para o seu umbigo ao invés de colaborar e cuidar do outro?
    O amor está em vias de extinção no nosso planeta. É um salve se quem puder.

    ResponderEliminar
  6. este texto está tão mas tão bom Helena. Sim é verdade que o mundo está uma treta e que cada vez as noticias de atentados estão mais presentes quando pensamos em marcar uma viagem por exemplo, mas isto é exactamente aquilo que temos de combater o medo de viver porque alguém pode desatar a matar pessoas, pois na realidade nada nos garante que não vamos atravessar a estrada amanhã e ficamos lá. Eu costumo dizer que o mundo está uma treta mas que nós temos o poder de o tornar um bocadinho melhor, dando mais de nós aos outros e vivendo menos nos nossos egos e por isso é que defendo tanto o voluntariado que pode ser feito de tantas formas. Sim posso não terminar as guerras no mundo mas quero acreditar que por momentos as minhas ações têm um impacto positivo em algo e aos poucos vamos percebendo que mais do que viver com medo nós temos é de aprender a viver com esperança.

    um grande beijinho
    Vânia
    Lolly Taste

    ResponderEliminar
  7. Este teu texto vai de encontro à nossa conversa no outro dia, em certo ponto. Não consigo assistir a violência, choro por tudo e por nada: choro de alegria, de nervosismo, se não consigo cumprir um prazo, se fico presa no trânsito e vou chegar atrasada ao trabalho, oh sei lá.
    Mas se há coisa que a minha mudança para os Estados Unidos (e permanência por 4 meses sozinha, sem ninguém) me obrigou foi a largar o medo, senão não saía de casa. Tinha de caminhar 1 hora às 5h da manhã, pelo mato, sem luz, sozinha, até chegar à estação. E o abanão que levei naquele acidente de carro fez com que percebesse que estava na hora de voltar.

    Beijinho, és grande.

    The Brunette's TofuInstagram

    ResponderEliminar
  8. Que bom ler este post, não sou de seguir blogs mas identifico-me totalmente com o que escreveste, ainda bem que não sou a unica , que a 1ª vez que fui ver o titanic sai do cinema antes de terminar o filme, pois os olhos estavam tão inchados de chorar que já nem conseguia ver direito, :)
    Em relação aos medos, sempre senti desde muito nova, acho que alguns devem ser insegurança... outros acabam por ser fruto das circunstancias da vida...
    Bjs

    ResponderEliminar
  9. Descobri hoje o teu blog e estou fã! Parabéns pela bela escrita e por mostrares que ainda existem pessoas tão empáticas! Um beijo

    ResponderEliminar

Latest Instagrams

© the styland. Design by Fearne.