Enquanto os meus amigos estão a casar, a comprar casa e a ter filhos...

11 de maio de 2017


Parece-me que todos os meus antigos colegas de escola e de faculdade estão literalmente a deixar sementes por este mundo fora. E todos os dias no Facebook sou bombardeada com todas estas lembranças de como o tic-tac não para. Não é que os inveje - longe disso. É até bastante engraçado ver como todos percorremos caminhos diferentes em prol de um único objectivo: a felicidade. E, no final do dia, esse sentimento de plenitude chega até nós de diferentes formas e não temos de percorrer loucamente os padrões que vemos nos outros.

No outro dia, uma leitora enviou-me um email (depois de ter lido o Diz-lhe Que Não) e disse-me que sentia que depois dos 30 era muito difícil manter amizades quando toda a gente começa a casar, a fazer vida a dois e a desaparecer para o resto do mundo porque conviver com os solteiros é - para eles, claro - uma grande merda. Não podem falar de bolos de noiva, nem de fraldas, nem de doenças infantis, nem de gravidez, nem de inscrições em creches, nem de subsídios pré-natal... E, para eles, estamos todos - coitados de nós - aqui parados no limbo à espera de embarcar na viagem da vida a dois e poder usufruir da felicidade plena e satisfatória que todos eles vivem e que nós - os solteiros, coitados - desconhecemos.


Eis o que aprendi enquanto toda a gente está a casar e a parir:

1.
Nunca, nunca, nunca vou fazer parte daquele grupo de pessoas que estão apaixonadas e perdem a noção das coisas e do que devem ou não partilhar. Fotografias das alianças? Não. Da barriga? Não. Dos pezinhos na água na lua de mel? Não. Dos mil problemas da gravidez? Não. Da ecografia da gravidez? Não. Do umbigo que caiu podre com a molinha azul? Estou a brincar. Mas não. RIP redes sociais.

2.

Nunca vou ter esta necessidade absurda de corresponder a um padrão da sociedade, daquilo que temos de fazer a seguir. Se já acabámos a faculdade, se já temos trabalho, está na hora de casar. Não interessa com quem - o importante é dar o próximo passo. E eu sei que isto pode soar um pouco azedo mas, acreditem, conheço imensa gente exactamente assim. Então, o comentário que mais vezes dou por mim a fazer é: "vai casar? Mas estão juntos há meia dúzia de meses" ou "está grávida? Mas estão juntos há meia dúzia de meses". É a proliferação deste sentimento de urgência e pânico, uma espécie de FOMO (fear of missing out), não das redes sociais mas de juntar os trapinhos e casar urgentemente que parece atingir toda a gente a partir dos 30.

3.

Não tenho um desejo propriamente gritante de me casar. Passei grande parte da minha vida em relações e pseudo-quase-relações. E depois de praticamente 10 anos (18-28 anos) a saltar de telenovela em telenovela sem pausas pelo meio, simplesmente deixei de ter energia para continuar neste rol de histórias que deram um livro, é verdade, mas também me deixaram com uma bagagem enorme espalhada pela casa. Então, estou solteira há três anos por escolha minha. Deixei de ter vontade de namorar só pelo desejo absoluto de ter alguém. Porque esse desejo também vem acompanhado de drama, desilusões e mágoas. Talvez de acordo com o cinema, a cultura popular e as músicas de amor, eu deveria chorar todas as noites e questionar os meus gatos porque razão continuo sozinha enquanto toda a gente à minha volta está a casar mas, na verdade, estou mais ocupada a viver a minha própria vida do que estar numa ânsia absurda em encontrar alguém dê por onde der. Quando esse alguém aparecer, fixe. Mas ele também tem de estar ocupado a viver a sua própria vida e não obcecado em encontrar uma mulher - de modo a que eu não seja a primeira que apareceu. Não quero ser o bote salva-vidas de ninguém. É que vou furar facilmente...

4.

Nunca me vou guiar pelo barómetro de felicidade da vida dos outros. Isto não é um jogo, por amor de Deus. Não está a acontecer a toda a gente menos a nós. Não devíamos ter ficado com a pessoa X que gostava tanto de nós porque, pelo menos, não estaríamos sozinhos agora. E não, não vamos ficar sozinhos para sempre. As pessoas encontram-se no timing certo. Acredito que estamos todos a caminhar uns para os outros. Há quem se encontre mais cedo, há quem se encontre mais tarde.

5.

Muitas das relações virtualmente maravilhosas que vemos são uma fachada para vidas de merda. Muitos dos colegas de trabalho com vidas perfeitas no Facebook sentem-se mais sozinhos que nós - coitados, os solteiros. Uma relação não valida rigorosamente nada na nossa vida. Não nos torna melhores ou piores. Não temos um problema por estarmos solteiros e termos 20, 30 ou 40 anos - bem, se forem como o Fascista Sexual têm, sim, de facto um problema.

6.

Não faz mal sentirmo-nos sozinhos de vez em quando. Nos jantares de amigos. Nas fotografias de grupo em que somos a pessoa solteira sentada no braço do sofá. Nas noites de sábado em casa a ver televisão porque toda a gente está num plano qualquer perfeito a dois. Nos cinemas ao domingo quando a nossa amiga leva o namorado, eles usam o cartão MEO para ter desconto e nós temos de pagar o bilhete completo. Nas raras vezes em que vamos a uma discoteca e todas as amigas casadas nos querem arranjar um homem à força e qualquer um para que olhem parece perfeito para nós. Nos almoços de família quando nos perguntam "entãããããããão, já encontraste alguém?" Há mil e uma situações em que nos podemos sentir sozinhos e isso não nos torna desesperadamente desesperados por casar.

Faz-nos, sim, perceber que temos emoções, que estamos abertos à vida e ao amor. Faz-nos perceber que ansiamos mais por um companheiro com quem partilhar a vida e não tanto alguém para nos fazer mostrar ao mundo que, afinal, não temos um problema. Faz-nos perceber que queremos um amor, mas não precisamos dele para atingir um qualquer Nirvana da felicidade que desconhecemos por completo porque - coitados - estamos solteiros.

Nenhum de nós está do outro lado da vedação a ver a vida perfeita dos casados passar, eternamente à espera de uma alma caridosa que repare em nós.

Então, enquanto todos os meus amigos estão a casar e a ter filhos... eu estou simplesmente a viver a minha vida da melhor forma que a sei viver. E isto, sim, é felicidade.

FYI: pijama e roupa de cama do Jumbo Moda.

11 comentários

  1. Que maravilha! Revejo-me em tantos destes pontos. Apesar de estar numa relação há 10 anos, não somos casados e mesmo com 32 anos não me sinto ainda nem perto de querer ter filhos. Há de acontecer no tempo certo e ninguém tem nada a ver com isso! ;)

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  2. Talvez, quem sabe, chegue o dia em que surgiu o timing de partilhares a TUA felicidade com outra pessoa e os amigos que agora deixam a sua semente ao mundo, estão separados ou prestes a fazê-lo, porque sentem que não viveram o que tinha para viver, no seu timing...

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  3. Partilho todas as palavras! Excelente!

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  4. Eu não diria isso melhor :) casei aos 21 porque os outros também o faziam, divorciei aos 25 e a partir daí nunca mais quis ter alguém a viver comigo ou a meter-me em confusões dessas.O facto é que já namorei, já flirtei e agora aos 41 continuo a curtir a vida enquanto já umas duas gerações de amigos casaram, tiveram filhos, descasaram, voltaram a casar.. por aí.. e eu sempre aqui.. a curtir :D não sei se vou embaracar um dia nessas vidas, mas para já gosto de trabalhar, dançar, fazer yoga, da minha cadela e da minha casa sossegada.. mas também adoro quando o meu namorado vem ter comigo ao fds.. cozinhamos, vemos filmes, namoramos, vamos dançar e em breve viajar :) eu prefiro VIVER em toda a extensão da palavra.. de forma natural e não seguir os padrões que segui em 1997 e que deu em ... traumas :P

    Adoro a tua forma de escrever e revejo-me 1000% :D

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  5. Dos melhores posts que já li Helena! Tão cru, tão verdadeiro, tão emocional. Ri-me com a parte do cartão MEO e nós temos de pagar o bilhete inteiro ahahah e isso já mostra o quão injusto o próprio cinema é. Devia ser: quem vai sozinho, pagam metade do bilhete, isso sim xD

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  6. Magnifique! É mesmo isto. Já estamos todos avisados :)

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  7. À propos. Une petite histoire:
    "The Children of the Dirt" by Simon Rich
    According to Aristodemus, there were originally 3 sexes. The children of the moon, who were half male and half female. The children of the sun, who were fully male, and the children of the earth, who were fully female. Everyone had four arms, four legs, and two heads, and spent their days in blissful contentment.
    Zeus became jealous of the humans joy, so he decided to split them all in two. Aristodemus called this punishment "The Origin of Love", because ever since the children of the earth, moon, and sun have been searching the globe in a desperate bid to find their other halves.
    Aristodemus' story though isn't complete, because there was also a fourth sex, the children of the dirt. Unlike the other three sexes, the children of the dirt consisted of just one half. Some were male and some were female, and each had just two arms, two legs, and one head. The children of the dirt found the children of the earth, moon, and sun to be completely insufferable. Whenever they saw a two-headed creature walking by, talking to itself in baby talk voices, it made them want to vomit. They hated going to parties. When there was no way to get out of one they simply sat in the corner, too bitter and depressed to talk to anyone. The children of the dirt were so miserable that they invented wine and art to dull their pain. It helped a little, but not really. When Zeus went on his rampage, he decided to leave the children of the dirt alone. "They're already fucked" he explained.
    Happy gay couples descend from the children of the sun. Happy lesbian couples descend from the children of the earth. And happy straight couples descend from the children of the moon. But the vast majority of humans are descendants of children of the dirt, and no matter how long they search the earth they'll never find what they're looking for. Because there's nobody for them, not anybody in the world.

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  8. Viaja uns anos e de repente toda a tua família e amigos deixam de acreditar que algum dia casaras e terás filhos, nem tocam no assunto porque acreditam piamente que não vai acontecer :D

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  9. Estava mesmo a precisar de ler sito hoje!!!!! Obrigado pelas palavras, identifico me com TUDO !!!!! És GRANDE

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  10. Nunca diga nunca, e não esteja a criar tantas barreiras em si :)

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