Diz-lhe Que Não

quinta-feira, 2 de março de 2017

Uma história sobre um dia de merda


O meu telefone toca às dez da manhã. Eu desligo o alarme e levanto-me da cama num ápice porque, bem, são dez da manhã e poder acordar a esta hora todos os dias é fabuloso. Abro a janela, deixo os cortinados voar lá para fora, levo os gatos para a sala e vou tomar o pequeno-almoço. Faço um zapping porque, por mais que digam que isto não é saudável e blá blá conversas de fanáticos, gosto de comer em frente à televisão. E bem, são dez e meia da manhã, vou tomar banho, visto qualquer coisa porque tenho o dia livre qb - ou seja, não tenho nada marcado de trabalho e vou passar grande parte do dia a fazer o que mais gosto: escrever - e saio de casa para me encontrar com uma amiga na praia. Damos uma caminhada, falamos sobre tudo e sobre nada. Falamos do Óscar do Casey Affleck. Falamos sobre a música da Romana que uma nova miúda cantora colocou no Facebook. E é fantástica. Falamos sobre trivialidades de quem fala todos os dias e, na verdade, não tem nada de especial para falar. Porque basta a companhia e um passeio ali à beira mar. Despedimo-nos e eu volto para casa porque, entretanto, já é hora de almoço. Como a correr e meto-me no carro para ir ver uma casa que consegui ser a segunda possível compradora a ver. Chego lá e o agente imobiliário está atrasado. Fico um momento à porta naquela situação constrangedora em que o casal, que vai ver antes de mim, está ali com uns sorrisos embaraçados porque ninguém sabe muito bem o que dizer. O agente chega, pede desculpa pelo atraso e eles sobem enquanto eu fico cá em baixo, sentada no degrau à espera. Passam quinze ou vinte minutos quando eles descem, apertam mãos e chega a minha vez. Mas o casal já fez uma reserva porque quer mesmo ficar com a casa. Fixe. Vou embora com a promessa de que, se eles desistirem, me contactam.


São três da tarde quando começo de facto a fazer qualquer coisa. Sento-me no sofá. Pego no telemóvel (que não tem notificações de nenhuma rede social porque as desactivei há uns meses) e, pela primeira vez no dia, vejo tudo o que se está a passar no mundo. Vejo fotografias do carnaval. Vejo as máscaras dos filhos e dos bebés. Vejo barrigas porque, pelos vistos, este é o ano em que toda a gente está gravida. Vejo muitos copos. Vejo bebedeiras de quem aproveitou o feriado. Vejo mil e uma opiniões sobre o Óscar do outro. Começo a responder a umas quantas e, quando dou por mim, estou transformada numa daquelas pessoas que, pelo computador, solta o seu monstro comentador e opinador sem escrúpulos. Decido afastar-me do Facebook porque vejo toda a gente a viver nesta telenovela estúpida que são as redes sociais onde todos se cruzam na primeira fila a dizer olás transformados em likes em fotografias e a ter conversas profundas num chat azul.

Começo a escrever qualquer coisa. Mas estou frustrada com a situação da casa e acabo por me distrair e decido pegar naquela aplicação estúpida dos seguidores no Instagram para ver quem deixou de me seguir. É aquela dose mensal de uma granada emocional. Normalmente, são outras bloggers ou assim que seguem e deixam de seguir - não sei bem porquê. Mas, pára tudo. Uma amiga deixou de me seguir. Ligo a outra amiga para contar. Vê lá quem é que deixou de me seguir, achas normal? Que atitude mais estranha. Mas calma, será que ela ainda é mesmo nossa amiga?, questiona-me ela ao telefone. Ela nem sequer fala connosco há meses, diz-me. É verdade, se calhar já não somos e eu é que não me apercebi. Questiono-me quando é que foi a última vez que falámos.

Lembrei-me. Foi em Setembro do ano passado quando, depois de não ter ido ao jantar de aniversário dela porque estava num babyshower de uma grávida prestes a parir, ela me enviou uma SMS três semanas depois a pedir se eu podia pagar o dinheiro do jantar a que não fui. Mas o babyshower acabou às dez da noite. Eu podia lá ter ido ter, é verdade. Então porque não fui?, questionam-se vocês. Porque a conversa que tivemos nessa noite foi mais ou menos assim:

- O babyshower vai ficar para jantar porque são oito horas e ainda não abrimos os presentes. Agora chegou a mãe e a irmã, então tenho de ficar.
Zero respostas.
- Talvez consiga ir aí ter no fim do jantar para partir o bolo e cantar os parabéns. Até que horas posso ir?
Yey. Resposta dela.
- Se não vens, quem é que vai pagar o teu jantar?
- Se o problema não é a minha presença mas sim o dinheiro, sem problema, eu pago o jantar que não comi.
Zero respostas.
E zero vontade em lá ir ter. Fui para casa dormir.

Pensei que ela tinha percebido a indirecta. Nem à pessoa que menos gosto, eu iria pedir dinheiro. Se não veio, não veio. Assunto encerrado. Pensei que o tema tinha ficado esquecido mas, três semanas depois, sem me perguntar se estou bem, se estou viva, se estou morta, envia-me uma SMS a pedir o dinheiro e a dar-me o NIB dela. Foi mesmo assim. Perguntei a outras duas amigas (que ela conheceu através de mim e também convidou para o jantar) se ela lhes tinha ido pedir o dinheiro, dado que elas também não tinham ido. E elas disseram que não. Então só me pediu a mim? À amiga que lhe apresentou toda as outras que ela conheceu e a quem não pediu nada? A minha resposta a esta SMS foi uma foto da transferência bancária. Quão estranhas são as pessoas?

Esperei por um pedido de desculpa. Por uma nota qualquer. Uma mensagem a dizer que tinha sido parva. Porque estava bêbada, por exemplo. Mas nunca chegou. Até hoje, em que deixou de me seguir numa estúpida de uma rede social. As pessoas são uma merda. Todos nós. Eu também o sou - por vezes, quando estou de mau humor. Ou para algumas pessoas que não tenham empatia comigo. Ou para quem ache as minhas opiniões demasiado vincadas. Mas a merda é que eu gosto de debater assuntos e excedo-me demasiado quando o estou a fazer.

Vivemos numa sociedade em que grande parte das pessoas que conhecemos são uma treta. E isto não é um comentário negativo. Somos pessoas egoístas, egocêntricas e estamos focados na nossa vidinha. Queremos ser porreiros, queremos que todos gostem de nós, queremos ser o amigo fixe que está lá para tudo. Mas, vejam bem, é impossível ser-se isso. Não podemos estar lá para toda a gente nem gostar de toda a gente. No final do dia, vamos acabar por não estar lá para ninguém. Porque temos trabalho. Porque temos problemas. Porque não temos tempo. Porque ficámos sem bateria. Porque não dá jeito.

E eu também sou uma merda. Porque levo estas coisas todas a peito. Sou uma merda porque tenho expectativas elevadas para toda a gente. Sou uma merda porque vejo sempre o lado bom de todas as pessoas. Tive um namorado que me dizia que este era o meu maior defeito - esperar sempre o melhor dos outros. Porque depois levava com um grande balde de desilusão.

Todos nós - seres humanos - somos uma merda em sociedade. Preocupamo-nos pouco com as outras pessoas, passamos demasiado tempo a olhar para o nosso umbigo, queremos falar mais de nós e ouvir menos dos outros. Apitamos no trânsito, fazemos asneiras com o dedo ao carro de trás, estacionamos no meio de dois lugares porque não nos apetece fazer manobras. Lixamos o colega do lado para ganhar pontos com o patrão, desdenhamos de quem pode ser nosso concorrente porque não conseguimos fazer melhor, alimentamos mentiras de alguém só porque não vamos com a cara dela. Somos todos uma grande merda. Mesmo que, no dia-a-dia, não nos apercebamos disso porque ser merdoso acabou por fazer parte do nosso ser.

Então, no meio de tanta merda, o que é que podemos fazer? Não deixar que toda esta merda se torne parte do nosso estado natural enquanto seres humanos. E isto é um desafio diário com que temos que nos comprometer todas as manhãs. Por cada merda que conseguirmos evitar no convívio com as outras pessoas, é menos um bocado de coração que partimos.

Deixei a escrita de lado porque o dia, por hoje, já estava arruinado. E a inspiração para escrever não pode vir de sentimentos de merda a corroer o nosso espírito. Meti a música aos altos berros e dancei pelo quarto com os gatos atrás de mim. Gosto de os agarrar ao colo e dançar com eles pela casa. Talvez eles não gostem tanto assim mas eu continuei a fazê-lo. Até que me cansei e deitei-me no sofá a ver Santa Clarita Diet no Netflix. A série é absolutamente estúpida. E eu estou plenamente viciada. Fiz várias vezes pausa na série para falar ao telefone com duas amigas que, por estarem a sair do trabalho, me ligaram para a nossa dose diária de conversa pós-laboral. Queria ver mais episódios mas, bem, só há uma temporada. É melhor começar a poupá-la para me durar mais do que três dias.

Pensei que hoje me devia deitar cedo. Mas acabei por ir ao cinema. Odiei o Vedações - embora tenha gostado da prestação tanto da Viola como do Denzel. Só não entendi o propósito do filme nem a mensagem final. São uma e quarenta da manhã. A noite deixa-me sempre mais sentimental. Fiz um printscreen da aplicação e enviei para ela a perguntar o que se passava. Passado um bocado vi que ela tinha lido e não respondeu.

Encolhi os ombros. Porque, de facto, não há mais nada que possa fazer.

Decidi apagar a aplicação estúpida dos seguidores. E ler um bocado para acalmar a mente.

E fui dormir.

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Soutien do novo lookbook de lingerie do Jumbo Moda.
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13 comentários

  1. Impressionante como podia ler-te horas a fio sem me cansar, mesmo quando falas de pessoas de merda. Afinal, há tantas ao nosso redor e nós nem nos apercebemos. Ainda assim, quando levamos esse soco da realidade, por muito que pensemos que não vai voltar a acontecer porque "da próxima vamos abrir os olhos", eu acho que isso vai sempre repetir-se. Cabe-nos a nós saber encolher os ombros, como disseste, e continuar a nossa vida da melhor forma que sabemos: com conversas - pós-laboras - com as amigas, com livros e, no teu caso, com gatos.

    Beijinhos *

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  2. Gostei mesmo deste texto, Helena. Às vezes somos todos mesmo uma merda - e nem é por mal. Simplesmente ficamos embrenhados nas porcarias do dia-a-dia e bom...lá se vai o que há de bom em nós e fica o lodo. Há coisas que dependem do nosso carácter, mas outras são inevitáveis.

    "Queremos ser porreiros, queremos que todos gostem de nós, queremos ser o amigo fixe que está lá para tudo. Mas, vejam bem, é impossível ser-se isso. Não podemos estar lá para toda a gente nem gostar de toda a gente." - isto. Demorei a perceber, mas quando o percebi passei a estar bem melhor comigo mesma. É que não é defeito, é necessidade humana. Somos pessoas e não super-heróis! E não se pode pedir que sejamos perfeitos 100% do tempo. Mas vale a pena ir tentando!

    Jiji

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  3. Como te compreendo Helena...Já só uso o Facebook para ler notícias.Pode ser parvo,mas é verdade.Nao tenho paciência para a vida alheia,quando a minha é uma merda.Nao tenho paciência para fotos de gente feliz,pois o sentimento de inveja aparece.Enfim...

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  4. Gosto tanto quando escreves o que te vai na alma. Há uma app para saber quem deixou de seguir no insta? Jamais em tempo algum queria ter essa app =P na verdade penso que acabaria por me esquecer dela.

    Há ano e meio vim viver para Lisboa. Pensei que as pessoas daqui seriam horríveis, sem tempo para nada, stressadas. Logo no inicio percebi que estava errada, pelo menos sempre que pedia direcções por estar perdida sempre pararam a sua vida para explicar e sempre foram simpáticas.

    Também pensei que seria difícil fazer amigos. Contactei muitos dos meus amigos antigos que já moram em lisboa há tempos e por incrivel, ou então não, só me responderam alguns e só estive com 3 dessas pessoas. Mas aqui tudo bem, rumamos caminhos diferentes e não posso exigir que voltemos a ser amiguinhos como no liceu.

    O que realmente jamais me irei habituar é esta cena de desmarcarem à última da hora com a desculpa mais parva de sempre. A serio?! Especialmente quando vêm que vão poucas pessoas (???) E mais! Eu até entendo que a capital oferece muittttasss oportunidades de eventos, mas porquê marcar com um amigo por uma hora, para depois bazar logo? Ainda tinhamos tanto por falar... Acaba por ser uma situação frustrante. No algarve, quando combinamos um jantar já sabemos que vamos beber um copo a seguir, assistir a um concerto ou sentar no banco de jardim a conversar. Um jantar vem incluido com o que vem a seguir. Claro que há excepções, raridades da vida e que tens mesmo de bazar depois do jantar.
    Acho que nunca hei de me adaptar a esta dinâmica de Lisboa...

    Mesmo concordando contigo que as pessoas são uma merda e uhhh este ano tem sido desilusão atrás de desilusão, percebi que ao estarmos inseridos em pequenas comunidades conseguimos tirar melhor proveito de nós, nosso tempo e dar o melhor às nossas pessoas. Estou super grata de pertencer à comunidade de bloggers e à comunidade drum and bass, também temos uma comunidade de fotógrafos amadores... tudo hobbies que amo e acabo por sentir uma grande empatia com estas pessoas.

    Essa miúda que te pediu a guita do jantar que não foste é mais uma dessas pessoas de merda que devias era dar graças que desapareceu da tua vida. Não fiques a remoer pq que deixou de ser tua amiga, provavelmente ficou cheia de rancor e nós não queremos pessoas rancorosas à nossa volta certo? =)

    Beijinhos Lena e sê quem és sempre, com defeitos e qualidades porque são eles que fazem a pessoa que és, uma verdadeira inspiração!

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  5. Gostei tanto deste texto :) sinto o mesmo que tu em relação às pessoas que me rodeiam e que, inevitavelmente, vou perdendo. No final do dia e sem me esforçar muito, porque a vida já me ensinou isso, apercebo-me que está simplesmente a tirar do meu caminho as pessoas que não devem lá estar. Gasta as tuas energias com quem as recebe e é capaz de tas devolver. São esses que valem a pena. E continua a escrever..estou ansiosa pelo teu livro ;)

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  6. Embora não me tenha acontecido uma situação semelhante à tua, também já tive amizades a acabar por pessoas se revelarem de formas igualmente desagradáveis. Já percebi que, quando uma pessoa na nossa vida nos dá mais apoquentações que outra coisa, o melhor que temos a fazer é mesmo cortar e não investir mais, e dar lugar a outras amizades mais frutíferas. Claro que faz sempre mossa, e ficamos chateados, mas quanto mais cedo se der o momento "fuck this shit", mais em paz ficamos!

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  7. Tal como disse a outra leitora: "Impressionante como podia ler-te horas a fio sem me cansar". Sinto exatamente isto! Adoro o teu blog Helena e identifico-me quase sempre com o que escreves! Beijinhos e muito sucesso!

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  8. Podia ler-te durante horas e horas porque a tua escrita é algo que prende! É tão fácil e tão leve que prende. Nem sei bem explicar (...)
    Apercebi-me que penso exatamente como tu em relação a tudo o que escreves aqui! Quanto às pessoas não prestam: fuck them!

    Beijinho, querida ♥

    http://cristiana-tavares.blogspot.com

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  9. Bem Helena, quem está hoje aqui perdida em leituras a estas horas sou eu. Dei por mim a ler este texto três vezes porque queria absorver melhor. Estava aqui a ler os comentários anteriores e concordo com tudo - tens uma escrita que prende porque é tão fluída, é como se estivesse sentada a conversar contigo e me estivesses a contar esta história. E essa amiga pelo menos serviu para uma história tão intensa. Agora, corta-a :)
    Um beijinho grande e bom fim-de-semana.

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  10. Em tempos tive também uma "amiga" que percebi mais tarde apenas o foi enquanto pensou que poderia ter alguma vantagem...
    Até percebo que existam pessoas assim, egocêntricas que se acham muito especiais que se adoram e esbanjam amor, vivem para mostrar no facebook, a mim nada me diz tanta falta de essência.

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  11. gostei, escreve bem; foi a primeira vez que a li!

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  12. Eu tive uma situação parecida: quando uma suposta amiga me disse que estava com uma doença a nível de articulações, fiquei preocupada, falei com ela, fiz questões sobre como ela estava e podia tratar etc etc. Após uns jantares, saídas e convívios em que me tratou mal, pior fez de conta que eu não estava nos locais, decidi deixar de comparecer a estas saídas. Entretanto fui submetida a duas cirurgias, pelo que decidi comunicar que não poderia ir ao teatro com as restantes miúdas pois além dos gastos com a saúde não estava 100% para saídas. Pergunta no messenger: isso quer dizer que já não vais ao teatro?! (vindo de alguém que tinha acabado de saber que eu tinha sido operada.. duas vezes) há pessoas que não fazem falta na nossa vida. É difícil mas temos de de nos desapegar.

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  13. Apaguei a porcaria dessa aplicação uns dois meses depois de a ter instalado ;)

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