Se vivêssemos numa sitcom...

24 de março de 2017 Carcavelos


Eu sou completamente fã de sitcoms. That 70s Show, A Teoria do Big Bang, Friends, Seinfeld, How I Met Your Mother, New Girl... há todo um fenómeno fantasioso de viver numa comédia que nos faz literalmente mais felizes porque nos conseguimos identificar com as situações - ou não. Mas, na verdade, se vivêssemos numa sitcom, a nossa vida seria tão mais fácil. Em todos os aspectos. E é isso que me lixa - quanto mais as vemos, mais estúpidos nos sentimos.

Na nossa vida real, toda a merda que fazemos tem consequências. E aquele momento em que "no final, tudo acaba por se resolver" nunca mais chega. Na nossa vida real, os cabrões são sempre cabrões. Não são, no fim, um tipo porreiro que acaba por se revelar maravilhoso. São cabrões, ponto. Na nossa vida real, não somos a Cinderela e o universo não conspira para que tudo corra a nosso favor. Na verdade, vamos passar por provações, sofrimento e desgraças que, no final do dia, nem sequer conseguimos compreender porque nos estão a acontecer por mais mensagens que daí tentemos retirar. Na nossa vida real, não há um grande gesto que nos faz esquecer tudo o que de mau aconteceu. O mais certo é recebermos uma mensagem pelo Facebook e já vamos com sorte.

Mas-que-raio-há-de-errado-com-as-nossas-vidas?

Então, quantas mais sitcoms vejo, mais me pergunto mas-que-raio-há-de-errado-com-as-minhas-relações? É que, vejam bem, numa sitcom que salta entre os apartamentos e o café, as personagens têm mais relações que eu que ando quilómetros em Lisboa. E nunca vi tantos prédios com vizinhos bonitos. E cafés com tanta circulação de homens disponíveis e que metem conversa e dão o primeiro passo. Então, mas-que-raio-há-de-errado-com-as-nossas-vidas?

Neste momento, estou absolutamente viciada nas séries do Netflix - LOVE, Lovesick, Easy - porque são um poucochinho mais reais. Ou, pelo menos para mim, as personagens são mais credíveis e os cenários em que se movem mais adequados à nossa vida real. Na LOVE, vemos um grupo de jovens (e dois principais) cheios de dúvidas, medos e traumas a tentar simplesmente fazer o amor funcionar. Na Lovesick, vemos três amigos a reviver as suas histórias de amor passadas para tentar chegar ao amor presente. E a Easy, que funciona como uma espécie de mini-documentários, mostra-nos, em cada episódio, a vida de casais diferentes e completamente realistas.

E isto é bastante mais credível que as sitcoms românticas como o How I Met Yout Mother ou o New Girl (que eu adorei) porque se formos a pensar, na vida real, as probabilidades de conhecermos alguém numa livraria são nulas. Ou num parque. Ou no elevador do prédio. Ou porque alguém entornou uma bebida em cima de nós. Ou porque alguém nos deu um encontrão e virou a nossa mala no chão. As probabilidades duvidosas são infinitas. Mas elas estão lá todas nas sitcoms.

Todos nós gostamos de viver (eu, então, quase que fantasio com isto) agarrados à premissa do destino e dos acasos que estavam destinados mas, c'mon, em 99% dos casos não nos vai acontecer nada disto.

Se eu vivesse numa sitcom já estaria divorciada com a quantidade de homens que circula naqueles prédios e cafés

Não vamos conhecer ninguém no café porque toda a gente está a trabalhar. Não vamos conhecer ninguém na livraria porque os homens estão a beber cerveja no bar do lado. Não vamos conhecer nenhum vizinho maravilhoso novo no prédio porque não há casas para arrendar aos pontapés. E ninguém nos vai enviar flores para o trabalho porque isso é caro para caraças. E ninguém nos vai levar em viagens surpresa porque pedir férias ao patrão fora de época é um pesadelo. E ninguém nos vai beijar à chuva porque ninguém quer apanhar gripe. E ninguém nos vai entornar a bebida em cima de nós e apaixonar-se porque o mais certo é ficar furioso por ter de pagar outra. E ninguém vai correr atrás de nós pelo aeroporto sob risco de ser confundido com um bombista e, sei lá, levar um tiro e morrer. E o amor da nossa vida não vai interromper o nosso casamento com o quase-amor-assim-assim porque os casamentos são uma fortuna e só se formos muito estúpidas é que vamos pagar uma festa com um homem à espera que aquele que realmente amamos acorde para a vida.

Então, por mais que tentemos acreditar que somos a excepção, todos nós somos a regra. Não há destino. Não há serendipity. Não há grandes gestos que vão mudar a nossa vida. Há pessoas reais iguais a nós à espera de ser encontradas. Pessoas que vão dar o primeiro passo e pessoas que esperam que sejamos nós a dar. Há pessoas com vidas complicadas. Há pessoas cheias de bagagem emocional. Há pessoas com medos. Há pessoas com traumas. Exactamente iguais a nós.

Se vivêssemos numa sitcom, eu já estaria divorciada três vezes com a quantidade de homens que circula naqueles locais totalmente disponíveis e à espera de saltar para o primeiro plano. Mas, na verdade, todos nós circulamos em pano de fundo à espera de nos encontrarmos uns aos outros. E se continuamos a acreditar no inacreditável - nos beijos à chuva e nos grandes gestos de amor no aeroporto - estamos condenados a nunca, nunca, nunca passar para o palco principal. Vamos continuar a ser figurantes de uma comédia romântica pouco credível ao invés de tornar a nossa vida uma verdadeira história de amor.

Fotografia tirada por Faz de Conta Fotografia.

5 comentários

  1. O que me ri com isto - infelizmente é verdade. Nunca tinha parado para pensar como nas séries que se passam entre o café e a casa (como Friends), todas elas arranjam tantos namorados :P ehehehe bem visto!

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  2. Este post está tão engraçado e querido!
    Beijinho
    http://catarinarife.blogspot.com

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  3. Adorei o texto. Parabéns Helena!! Vais roubar muitos sorrisos :)
    Beijinhos e bom fim de semana *

    http://lacarotevermelho.blogspot.com

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  4. Conheces a série Happy Endings ? No seguimento das séries que referiste acho que ias gostar :) (adoro as que referiste !! FRIENDS é que vejo over and over again !! )

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