Sobre sermos nós próprios | Livraria do Cinema Ideal

6 de fevereiro de 2017


Uma das coisas que aprendi ao longo dos anos - especialmente nos anos mais recentes - foi que sermos nós próprios por vezes é uma pedra difícil de carregar no bolso. Daí que tanta boa gente ceda à pressão de simplesmente se encaixar. Não digo resignar ou aceitar mas simplesmente encaixar-se no que nos rodeia. Eu também já o fiz. Não digo que, então, era uma pessoa infeliz porque nunca era eu própria. Nada disso. Até acho que, naquela altura, era assim que me via. Demoramos muitos anos - se não toda uma vida - a descobrirmos quem somos.

Actualmente, é-me muito mais penoso encaixar do que simplesmente ser eu própria. Fazer fretes ou ir a sítios que não quero só porque toda o gente o quer deixa-me menos encaixada do que, pelo contrário, ser como sou - com todos os defeitos que, aos olhos dos outros, possa ter. Não tolero sítios com fumo e fico irritadiça, reclamo ou vou embora. Odeio que fumem ao meu lado, fico contrariada. Sou comichosa e picuinhas com a comida ao ponto de simplesmente não conseguir comer se algo me incomodar. Odeio jantares que começam às dez da noite - gosto de jantar cedo e fico intratável quando estou com fome. Isto podem ser defeitos, eu sei, que em grupo deveria tentar atenuar mas a tolerância não é das minhas melhores qualidades. Embora também seja algo que esteja a tentar melhorar.

Eu sou uma pessoa sossegada e acho que o estou a ficar cada vez mais. Gosto de sítios calmos, com pouca gente, sem música alta. Às vezes digo que, em contraste com a pessoa que era há cinco ou seis anos, uma velha de 80 anos entrou no meu corpo e apoderou-se de mim. Mas acho que está tudo relacionado simplesmente com o crescimento. Antigamente, embora nunca tenha fumado, o fumo não me incomodava como hoje. Discotecas cheias e com música estridente também não. E claro que às vezes penso que o problema é meu... Mas no outro dia estava a ver um daqueles programas da MTV (super shore) e um dos que fez o programa nos últimos anos partilhava que o ia abandonar porque já não era a mesma pessoa que tinha sido, já não gostava de sair, de beber e queria mudar de vida. E embora identificar-me com um participante de um reality show seja algo que nunca pensei afirmar, bem, senti o que o tipo queria dizer.

Aceitar as pessoas que somos em todas as fases da nossa vida é meio caminho andado para sermos felizes. Ou minimamente felizes. Uma outra coisa que adoro fazer é conversar com pessoas e descobrir mais sobre as suas histórias de vida. Quando falei com a dona da livraria do Cinema Ideal, ela explicou-me que se tinha despedido e começado a comprar e vender livros em feiras porque era o seu sonho. Depois de algum tempo assim, e com a dificuldade de o fazer durante os meses de inverno, decidiu que estava na hora de ter um espaço físico. E juntou-se ao Cinema Ideal. A Livraria Metamorfose vende livros em segunda-mão, o que significa que tem achados que vêm e vão - desde o dia em que tirei estas fotografias, já lá voltei três vezes. Neste dia, tinha encontrado uma versão antiga do Monte dos Vendavais (de 1950 e pouco) a 3€ - claro que comprei, embora já tenha outra aqui em casa de uma colecção recente.

A livraria tem também uma cafetaria absolutamente fantástica. É como estar no meio do barulho da cidade (mesmo ao lado do Largo Camões) mas, ao mesmo tempo, completamente isolados. É fácil de encontrar: subam as escadinhas ao lado do Cinema Ideal.














4 comentários

  1. Como te compreendo Helena.
    Por vezes sinto-me uma ovelha longe do seu rebanho.
    Imagina juntar a tudo o que referiste o facto de ter deixado de comer carne e peixe. Oh my god...que se passa ctg? Não gostas X e Y e ainda por cima agora não comes o mesmo que nós? :)

    Noto que com os 30 comecei a mudar, alias, comecei a apreciar outras coisas. Continuo a gostar de ir à discoteca X , mas já não todos os fins de semana.
    Não gosto da musica comercial que a maioria gosta e não vejo as séries/filmes de que todos falam tão bem,
    Não vou aos locais da moda só porque e~stão na moda.
    Vou ao locais onde me sinto bem (muitas vezes até vou sozinha) e faço o que quero e vejo o que quero.

    Fui há um mês a primeira vez a essa cafetaria com uma amiga e fiquei maravilhada. Como é que eu nunca ali tinha entrado? Surreal...lá está as vezes tens de dar oportunidade a ti mesma e/ou aos outros para experimentares novos sitios.

    Adorei o cházinho e fiquei na janela virada para o exterior que tem aquele encanto especial.

    Rita

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    1. Olá Rita, eu ainda não consegui ficar nessa mesa especial ehehe porque quando começa a ficar de noite lá fora, o encanto ainda é maior. E percebo o que dizes e faz todo o sentido (embora eu coma carne e peixe). Ao longo da vida vamos estar sempre em mutação. Acredito que daqui a 10 anos vais olhar para trás e pensar o quanto mudaste novamente. E é isso que é óptimo. Eu também já pouco vou a discotecas mas nos 20 anos chegava a ir quinta, sexta e sábado (hoje não compreendo como aguentava eheh). O bom é irmo-nos conhecendo e redescobrindo, desde que gostemos sempre de nós em todas as fases :)

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  2. Também conheço e ADORO!!! Dos sítios mais sossegados de Lisboa xD

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    1. É mesmo!!! Para mim foi uma descoberta recente e que já voltei mais vezes porque adorei :)

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