Redes Sociais: Os (novos) diários desta geração?

26 de janeiro de 2017





Tenho diários que datam desde 1998 - provavelmente a altura em que, aos 12 anos, comecei a ter noção das minhas emoções e da necessidade de as expressar. Se, inicialmente, estes desabafos se baseavam em pequenas anotações nas minhas agendas - hoje aconteceu isto e aquilo, tive teste de matematica e comi uma bola de berlim -, com o crescimento, passaram a longas narrativas que espelhavam os meus estados de espírito. Em 2000, começava a minha longa paixão pelo Johnny da mota azul - que, nostalgicamente, já falei aqui e aqui - e as páginas e páginas que narravam a epopeia magnífica que foi esta (não) relação - só existia da minha parte, se é que me entendem. Na inocência dos meus 14 anos, ele era o ser mais mágico à face da terra, a expressão de tudo o que significava a palavra amor (na minha cabeça) e a forma como fantasiava com a presença dele no meu dia-a-dia.

Se tivesse nascido em 2002 e tivesse agora 15 anos, provavelmente estas epopeias estariam espalhadas pelo Facebook e Instagram da forma mais anti-natural possível - a exposição da minha história de amor seria avaliada e julgada por todos e, pior ainda, estaria disponível para ele fazer a sua própria leitura no ecrã do seu computador. Eu costumo brincar e dizer que se tivesse vivido esta paixão nos dias de hoje, o mais certo é que ele me tivesse levado para trás do pavilhão para uns amassos ao invés de me dar chupa-chupas e dois beijinhos na cara - que era o que ele fazia. Mas isto, para mim, é a leitura que faço de uma nova geração que, aos 16 anos, está a fazer vídeos de sexo no Main (notícia que saiu aqui) e que faz juras de amor através de fotografias em roupa interior.


Quando partilhamos coisas pessoais com toda uma plateia virtual

Sei mais da vida de muita gente através do Facebook do que através de conversas reais com essas pessoas. Isto porque elas partilham tudo. Partilham tanto e demasiado que tornam a sua vida uma telenovela disponível para qualquer pessoa poder ver. E é possível que muita exposição seja feita sem grande consciência disso. Estamos chateados - partilhamos qualquer desabafo. Estamos tristes - partilhamos uma música. Estamos felizes - partilhamos uma foto. Estamos apaixonados - partilhamos corações e amo-te virtuais. Partilhamos toda a nossa intimidade com um público que, sendo o mais pragmática possível, não se interessa pelo que estamos a dizer. São coisas pessoais que deveriam ser partilhadas connosco próprios ou, em última análise, com os nossos amigos mais próximos.

Daqui a uns dias vou falar numa conferência sobre segurança na internet e este é um dos temas que vou abordar - a forma como nos expomos de uma forma tão íntima e despropositada numa rede que, ao contrário do que gostamos de crer, não tem só os nossos amigos pessoais. Usamos o Facebook como saco de boxe para exteriorizar as nossas frustrações a todos os níveis - pessoal, emocional, escolar, profissional, familiar... E se formos a pensar a fundo na quantidade de coisas que partilhamos, a grande maioria delas não faz grande sentido para ninguém a não ser para nós próprios. Então porque temos esta necessidade de partilhar?

Todas estas partilhas, no fim do dia, só nos interessam a nós próprios. Então porque usamos as redes sociais como diários?

Quando eu tinha 14 anos, comecei a escrever diários como forma de exteriorizar as minhas próprias emoções, frustrações, pensamentos e sentimentos. Escrevia, lia e relia como forma de fazer a minha própria interpretação das coisas que vivia. Escrevia-as para as analisar comigo mesma - não para receber likes nem comentários. Não havendo Facebooks, todas estas partilhas eram feitas comigo própria: estados de espíritos, tristezas, músicas, paixões, fotografias, frustrações, zangas e até momentos de ódio. Porque, ao fim e cabo, a única pessoa a quem interessavam era simplesmente a mim própria.

Não estou com isto a dizer que nunca usei o Facebook como palco das minhas emoções. Claro que sim... Já partilhei músicas com mensagens subliminares, já publiquei fotos mais sensuais para mostrar a algum tipo que estava melhor sem ele, já tive discussões virtuais sobre assuntos pessoais, já partilhei com o mundo fotografias de amor e paixão. Mas, como em tudo na vida, aprendi com as minhas próprias experiências - e aprendi a não usar o Facebook como um diário público e aberto a qualquer pessoa ler.

E - agora vou fomentar a escrita - não há maior prazer do que reler coisas que fizemos, sentimos ou pensámos e percebermos como mudámos. Como aprendemos. Como crescemos com essas mesmas coisas que fizemos, sentimos ou pensámos. Se acham que um diário é algo meio pateta de se fazer, sigam o meu exemplo: escrevi sempre em cadernos personalizados à minha própria maneira. Sempre que estiverem chateados com qualquer coisa, escrevam. Se estiverem felizes, escrevam. Se tiverem dúvidas, escrevam. Se estiverem tristes, escrevam claro. E depois, quando sentirem necessidade, leiam tudo o que escreveram.

Não vão ter likes nem comentários, é certo. Mas vão conhecer-se a vocês próprios ainda mais e melhor.



7 comentários

  1. adorei o texto e concordo plenamente. nunca consegui continuar um diário, talvez fosse por isso que aos 12 anos tivesse de ir a uma psicóloga falar das meninas más e dos meus pesadelos. é verdade que por vezes levava ao Facebook uma coisa ou outra, como dizes, com mensagens subliminares, mas a geração que nasceu com um iphone na mão não sabe, nem nunca saberá o que é esconder para eles próprias uma situação má ou pervertida, eles sentem a necessidade de se exporem e receberem feedback. e a culpa está nos que os rodeiam que fazem o mesmo e, talvez, nos pais que não veem mal (ou não veem de todo) em crianças de 13 anos partilharem fotografias semi-nuas para fazerem inveja ao seu ex de 16... it's messed up.

    beijinho,
    Moi by Inês

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  2. Com 12/13 anos também tinha diários e fartava-me de escrever! Depois acabei por deixar mas recentemente voltei a ter um diário, e é como dizes, não uso aqueles cadernos que são especificamente diários mas cadernos mais personalizados!
    Se há coisa que me faz confusão são as mensagens de aniversário expostas em fotos no Instagram... não percebo o porquê de as por lá quando podemos simplesmente dizer tudo somente à própria pessoa..
    enfim.. a geração de agora preocupa-se mais com o que os outros pensam e com o facto de serem conhecidos na internet do que com o zelo da própria intimidade

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  3. Desde que aprendi a escrever que tenho diários e cadernos. Houve fases da vida que os usei mais do que outros. Sendo uma pessoa, por norma reservada, nunca usei vi as redes sociais como local para partilhar a minha vida. Como criativa e com uma marca própria comecei a partilhar um pouco mais, mas sempre com o cuidado de não expor nem a mim, nem quem me rodeia. Acho que muita gente perdeu o sentido da privacidade, tanto o pessoal como o do próximo. Nem toda a gente têm de saber disto ou daquilo. Se as querem publicar na internet há sempre outros locais onde mais anonimamente podem falar de tópicos que as incomodam ou onde podem pedir ajuda.

    (off the topic - esse caderno da Mafaldinha é um amor!!)

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  4. É verdade. Esta geração baseia-se em likes e comentários e acabam por se esquecer da privacidade e um dia quando realmente tomarem atenção há coisas que já não vão poder apagar. Deixou de haver a necessidade de esconder para surgir a necessidade de aparecer. É triste porque na verdade os jovens perdem imenso tempo nas redes sociais, li há dias uma artigo sobre uma blogger que desinstalou a app do facebook do telemovel e apercebeu-se o quando aquilo a consumia, pois ela não vivia sem a app. Por isso Helena lanço-te o mesmo desafio, apesar de ser o teu trabalho, desinstala uma app com a qual não consegues viver e relata a tua experiência. Eu já o fiz e tenho a dizer-te que é difícil mas começas a viver mais o real que o virtual... ;)

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  5. Desculpa o abuso do desafio... podes sempre mandar-me para sítios ainda não explorados xD

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  6. Adorava e adoro silverchair :)
    Inês

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  7. Eu sempre escrevi em diários. Em diários e em cadernos personalizados e às vezes até em folhas soltas que acabo por nunca mais voltar a ver. Mais tarde, acrescentei o telemóvel. Isto porque sempre que me ia deitar me dava uma vontade enorme de escrever ou me lembrava de uma frase que naquele momento me parecia genial e tinha de a apontar no telemóvel de imediato, caso contrário no dia a seguir já não me lembraria.
    E assim foi ... e assim é.

    Um beijinho

    thebrunettetofu.blogspot.pt

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