Amizade depois dos 30 anos

19 de dezembro de 2016


Há coisa que, para quem convive comigo, sinto que é difícil compreenderem. Eu sou uma pessoa emocional. Isto para dizer que dou tanto de mim que só consigo coabitar num universo em que as outras pessoas também me dão tanto de si. Não consigo contentar-me com uma relação assim-assim. Poucoxinha de afectos.


E sou daquelas pessoas de sair de casa para levar jantar a uma amiga doente. Sou daquelas pessoas de ir riscar o carro de um ex-namorado que traiu uma amiga. Sou daquelas pessoas de odiar quem faz mal a uma amiga. Sou daquelas pessoas de gritar o que a minha amiga precisa de ouvir - mesmo que não seja o mais bonito. E a honestidade por vezes não é fácil numa amizade. E há quem também não saiba lidar com ela.

Isto para dizer que, pelas pessoas de que gosto, não olho a meios e fins. Simplesmente estou lá. Gosto de falar horas a fio, de debater ideias, sentimentos, emoções. Tanto de falar mal de outras pessoas de quem não gostamos (porque óbvio que também falo mal de outras pessoas), como falar de problemas, de trabalho, de dúvidas, da vida. Vejo os meus amigos como família. E cheguei aos 30 com uma mão cheia deles - e basta-me.

Muitos amigos vão desaparecer. É mesmo assim...

Uma das coisas que mais aprendi nos últimos anos - e que por vezes me magoou - é que os amigos desaparecem. Simplesmente assim. E não há nada que possamos fazer. Conhecemos novas pessoas, ganhamos novos interesses, mudamos de vida e as pessoas que faziam parte do nosso dia-a-dia, de repente, ficam para trás. Deixamos de nos identificar com elas, o nome delas deixa de aparecer no nosso telefone e o chat começa a ganhar pó.

Por outro lado, também aprendi que vamos seguir os nossos ideais e as pessoas pouco ou nada se vão interessar por eles. Não vão tomar o nosso partido nem tomar as nossas dores como suas. E isto não quer dizer que não gostem de nós. Quer dizer que têm 30 anos e têm mais coisas com que se preocupar. E aceitar que pessoas que achamos família podem, tal como as próprias famílias, por vezes desapontar-nos, é um trabalho interior que tenho vindo a fazer.

Mas - porque há sempre um mas - também aprendi a libertar-me de pessoas que simplesmente não davam à amizade a mesma reciprocidade. E que, ao invés de me fazer bem, só me faziam andar com uma bola de ferro amarrada aos tornozelos.

A amiga que me deixou horas sozinha para ir ter com um tipo

Há uns anos tinha uma amiga - grande amiga - que, apesar de lhe ver virtudes, também lhe identificava defeitos: era uma pessoa extremamente centrada nela própria. Uma vez, num concerto gratuito e lotado (Joss Stone na Praça do Comércio, nunca mais me esqueci), tive um ataque de ansiedade. Comecei a puxá-la no meio da multidão e ela simplesmente afastou o meu braço, disse que queria procurar um tipo por quem, na altura, estava interessada, e não tinha tempo para os meus chiliques. Passei o concerto todo sentada num degrau lá no fundo. No fim - e porque estava de boleia com ela - disse-me que se queria estragar-lhe a noite, isso não ia acontecer, e que ela, agora, ia para o bairro alto a um bar ter com ele. Passei um bom par de horas sentada à porta de um bar à espera que ela quisesse ir embora. Isto numa altura em que não existiam telemóveis com internet para passar o tempo. Fiquei simplesmente ali, a pensar na vida e a ter a certeza que, depois daquela noite, nunca mais a iria ver.

Esta foi a mesma amiga que, depois de lhe oferecer bilhete para vermos Elton John no Rock in Rio, disse - a meio do concerto - que queria ir embora porque estava farta de lá estar. Fomos embora, fui deixá-la onde ela me pediu - um café em Carcavelos - para depois perceber que queria ir para uma discoteca na margem sul ter com (outro) tipo por quem estava interessada.

As pessoas com quem nos divertimos nem sempre são os nossos amigos

Talvez agora a vejam como uma pessoa horrível e um pouco desprendida dos amigos para, facilmente, os trocar por tipos. Mas, na verdade, ela também era uma pessoa divertida e com quem passava bons momentos. A diferença é que, aos 20 anos, achamos que as pessoas com quem nos divertimos são os nossos amigos verdadeiros. Aos 30, percebemos que nem sempre é assim.

A dada altura, cortei relações com ela. Simplesmente dei-lhe um fim. A bola presa aos tornozelos estava a tornar-se cada vez mais e mais pesada. Hoje em dia, não faço ideia do que ela está a fazer, se já casou, se tem filhos, onde trabalha. Mas a vida é mesmo assim...

Ao longo dos anos fui perdendo amigos e ganhando outros. Deixei de me dar com pessoas com quem não me identificava, pessoas negativas, pessoas que passavam o tempo a criticar outras amigas, pessoas que estavam mais disponíveis para noitadas e menos para manhãs. Disse adeus aos amigos do social e optei por guardar os amigos da vida pessoal. Mas também perdi amigos que, em tempos, foram a minha vida. Talvez eles também se tenham deixado de identificar comigo. A vida dá voltas e vamos todos seguindo os nossos caminhos. É triste, eu sei. Mas é simplesmente o plano da vida.

E há uma coisa que, a custo, aprendi: não tenho tempo para estar com pessoas que não me fazem bem. Se aos 20 anos temos todo o tempo do mundo para todas as pessoas que conhecemos (e todas aquelas saídas em grupos de 20 pessoas?), aos 30 já quase nem uma mensagem pelo Facebook conseguimos mandar, quanto mais combinar cafés, noitadas, tardes nas compras e fins de semana na praia.

O meu grupo de amigas é pequeno mas unido. São as pessoas que por vezes não gostam das minhas escolhas mas aceitam. São as pessoas que, acima de tudo, me veem exatamente da forma como eu me vejo. São as pessoas que tenho a certeza que, se um dia precisar, vão largar tudo para me acudir. E, acreditem, por vezes só isso basta.

21 comentários

  1. "A diferença é que, aos 20 anos, achamos que as pessoas com quem nos divertimos são os nossos amigos verdadeiros. Aos 30, percebemos que nem sempre é assim."

    A frase que melhor resumo tudo :) Adorei Helena.
    Um beijinho*

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    1. Quando somos mais novos, é normal acharmos que os amigos com quem saímos ao sábado e nos divertimos tanto são aqueles com quem, no final do dia, podemos contar. É preciso alguma maturidade (e quedas) para se perceber que não :P

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  2. Nunca um tema veio em tão boa hora.Eu ando nessa fase, a da compreensão. Ando magoada e triste com uma amiga que me abandonou quando arranjou namorado. Sempre fomos as duas até aquele dia. Não consigo perceber como a amizade pode ser descartável. Tens amigos ate encontrar o amor, as e o amor da amizade onde fica? O problema é que já nem consigo lidar com isso e tenho rancor. Mas um dia destes hei-de deixar de pensar nisso.

    Obrigada pelo post.
    Beijinhooo
    RITISSIMA BLOG

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    1. Uii também podia ter falado nesse ponto mas, na altura em que escrevi isto, não me apeteceu. Também já passei por isso - amigos que, de repente, desaparecem quando entram em relações. E isso é o mais comum à medida que vamos ficando mais velhos. É por isso que digo que à medida que crescemos, o grupo de amigos começa a afunilar e acabam por ficar só mesmo os verdadeiros :)

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  3. Tambem não goste das coisas pela metade, quando sou amiga dou-me por inteiro, mas infelizmente não podemos esperar dos outros que sejam assim (queriamos, mas não podemos) e isso por vezes ainda me desilude. Hoje aos 33, não tanto como aos 20, mas desilude. Também serve de lição, e a partir dai decidi dar aos outros o que eles fazem por ter.

    Beijinhos e boa semana

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    1. Acho que a amizade flui naturalmente e a reciprocidade de que falamos acaba por existir quando a amizade é real e vem do coração. Se não é, também não vale a pena perdermos tempo com isso :)

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  4. Adorei este texto e identifiquei-me especialmente com os dois primeiros parágrafos (embora ainda esteja bastante longe dos 30).

    Beijinho

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    1. Ahah mas aprendemos em todas as idades e fases da vida :)

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  5. Aquele momento "triste" em que tenho apenas 23 anos e já me identifico tanto com isto...

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    1. Ahah mas isso é bom. São menos anos a sofreres com pessoas que não interessam assim tanto :P

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  6. Não consigo não ler os teus textos até ao fim porque sei, à partida, que vou identificar-me. E isso aconteceu mais uma vez. Apesar de estar na fase dos 20, já deixei muitas pessoas para traz por encontrar outras com que me identifiquei mais e as quais me fizeram mudar e desprender das outras. E sei que, com o tempo, isso irá acontecer cada vez mais. Só espero ter a sorte de, aos 30, ter uma mão cheia de pessoas do meu lado, e espero também ter a sabedoria de as manter.

    Beijinhos, Miss Melfe

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  7. Adorei este teu texto, Helena, e revi-me imenso quando te assumiste como uma pessoa que não gosta de amizades "poucoxinhas de afectos".
    Já me aconteceu algo assim, mas foram casos isolados, nunca uma amiga minha me fez isso por sistema. Por outro lado, já terminei relações de amizade e houve outras que terminaram sozinhas, pois como fazes ver, os anos tornam-nos mais selectivos e as amizades vão-se filtrando, ao mesmo tempo que criamos outras com pessoas com quem nos identificamos mais.

    Acho tudo isto muito interessante, especialmente quando vejo que as pessoas de quem nos rodeados e/ou as que chamamos de "amigos" são o reflexo da nossa própria evolução pessoal. :)

    Joan of July

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    1. É isso mesmo: são o reflexo da nossa própria evolução pessoal. Adorei esta ideia porque é mesmo isso :) No meu caso, eu nunca me chateei com ninguém, simplesmente a amizade terminou sozinha e deixou de haver empatia. Acho que, enfim, acaba por ser assim...

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  8. Helena, como te compreendo.
    Cheguei a um momento na minha vida em que me deparei com o facto de os meus ditos "amigos" só estavam comigo quando andavam "down" e depois nos momentos felizes simplesmente passavam-nos com outros.
    Resultado eu era a amiga que os punha para cima e depois quando já estavam bem iam divertir-se com os outros.
    A ficha caiu-me quando num jantar de aniversário meu, onde pela primeira vez quis fazer no local que eu queria mesmo (e deixei de me stressar se X ou Y teria dinheiro para ir) não apareceu uma única alminha.
    Alguns foram ver o benfica a jogar (sim, o benfica...deixei de esperar pelo pedido de desculpa que nunca veio), outros tiveram umas tragédias, outros inventaram desculpas, o que é certo é que ninguém apareceu.
    A partir daí resolvi que o meu tempo era precioso e embora seja um ser bastante sociavel apercebi-me que estava a desperdiçar as minhas folgas com quem verdadeiramente não fazia questão de estar comigo. Eu sei, as pessoas têm a vida delas, blá blá, mas numa amizade tem de existir reciprocidade e não ser sempre o mesmo a tomar iniciativa para se estar junto (tal como numa relação amorosa).

    Naturalmente que isto não é fácil para mim, ainda me estou a habituar à ideia de que as minhas BFF´s, ou as que considerava como tal, se eu não disser nada igualmente não partirá delas a iniciativa.

    A minha resolução de todos os anos novos, e que aos poucos vou conseguindo concretizar, é a de fazer as coisas por mim, ter tempo para mim, mimar-me, ir a locais (mesmo que sozinha) e fazer o que eu gosto. O mundo lá fora é um espelho de nós, quando nós estivermos bem serão pessoas assim que iremos atraír.
    Felizmente cada vez tenho-me apercebido que na prática é mesmo isso que acontece :)

    Quanto aos ditos amigos, o contacto com eles é escasso ou inexistente. Por vezes uns likes no facebook, mas nada de mais.

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    1. Olá Rita. Sabes, se calhar foi preciso acontecer essa situação menos boa na tua vida para que tivesses um momento de viragem e de mudança interior. Eu não sei como iria reagir nessa situação mas iria ficar muito magoada. Vais conhecer muitas mais pessoas ao longo da vida e, até lá, vais vivendo e fazendo o que queres e gostas, mesmo que sozinha. Eu faço isso muitas vezes - se quero ir a algum sítio ou fazer qualquer coisa que sei que mais ninguém quer ou não têm tempo ou estão com trabalho, eu simplesmente vou :)

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  9. Identifico-me muito mais com os 30 do que com os 20 (bem vistas as coisas, realmente estou mais perto dos 30 do que dos 20, deve ser isso xD).

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  10. "E há uma coisa que, a custo, aprendi: não tenho tempo para estar com pessoas que não me fazem bem."

    Não diria melhor. A vida é muito curta!!!
    Mas verás que tudo ainda muda mais um pouco quando tiveres filhos. Algumas amigas que não os tem vão desaparecer como o fumo...

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    1. Bom dia Xica
      Não é justo o que está a dizer. As mulheres quando têm filhos centram-se muito neles (claro, há excepções), mas há inicialmente menos tempo para elas mesmas e para as amigas, as conversas centram-se muito no bébé isto, o bébé aquilo, as fraldas, as doenças, os choros. nessa fase irão aproximar-se algumas pessoas e afastar-se outras e não me parece anormal que as mulheres que não têm filhos e/ou não queiram ter se afastem um pouco pois não há aquele assunto em comum.
      Tal como muitas mulheres quando arranjam namorado se afastam das amigas solteiras também é evidente que quem não tem filhos e/ou não tem tanto interesse em falar de bébés se afaste um pouco das que têm filhos.

      Anyway o que quero dizer é que existem fases da vida e em diferentes fases estão pessoas diferentes connosco, há aquelas amigas que nos seguem em várias fases, mas há outras que aparecem numa altura ou noutra. isso francamente não me choca, o que me choca é amizades por interesse e/ou superficiais.

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    2. Xica Maria e Ana, percebo totalmente os vossos pontos de vista mas acho que depende muito de cada pessoa. Tenho amigas que engravidaram e tiveram filhos e eu simplesmente deixei de me identificar porque, como disse a Ana, todas as conversas se passaram a centrar em filhos, bebes, fraldas, iogurtes. E eu gosto delas mas não tenho paciência para estar horas a falar disso (antes dos bebés, eram as conversas sobre os casamentos). Não deixei de gostar delas e, de tempos a tempos, ainda nos encontramos para por a conversa em dia mas, lá está, entendo perfeitamente que elas se dêem mais entre elas porque têm (novos) interesses em comum. Por outro lado, uma das minhas amigas do meu grupo unido de que falo neste post também está grávida e falamos sobre isso, claro, mas esse tema não ocupa 99% das conversas dela. A vida dela continuou apesar da gravidez, continuou a ser a mesma pessoa, com os mesmos interesses. Eu sei que ao longo da vida vamos passando por fases e vamos ganhando amigos e perdendo outros porque é naturalíssimo. E a altura dos filhos é, sem dúvida, um ponto chave.

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