Oreo de Fran Ross

15 de agosto de 2016



Mais um livro de verão: desta vez, uma leitura completamente diferente de tudo aquilo a que estão habituados. Em 1974, no auge do Black Power Movement, um movimento socialista e activista em prol dos direitos dos negros que começou nos anos 60, Fran Ross publicou este livro e criou uma heroína meio negra meio judia, que é brilhante: Oreo. Acabou por ser o seu único livro publicado porque morreu a meio da sua segunda obra mas marcou uma geração de escritoras afro-americanas que não têm medo de satirizar a sua própria cultura.

Mas os brancos não curtiam a criminalidade nas ruas, ao contrário da malta negra; não gramavam levar uma coça ou que lhes assaltassem a casa ou que lhes violassem a mulher, ao contrário da malta negra; não ficavam felizes da vida por os filhos andarem a pastilhar, a fumarem charros, ao contrário da malta negra. Não se devia permitir que aquela gente macambúzia e sempre de trombas se misturasse com os negros decentes, que tanto gostavam de se divertir um bocado. A cidade adoptou um regulamento de conduta pra moradores extremamente rigoroso, que era suspenso no caso dos negros e reentrava em vigor sempre que apareciam brancos.

Antes de mais, não vão ler este livro como um romance simples porque é impossível: a própria construção do livro é altamente louca e bizarra, onde vamos acompanhando a família de Oreo num registo livre (ou sem uma grande lógica cronológica) onde o presente e o passado se misturam e vamos lendo pequenas histórias da família, todas elas numa linguagem fluída, como se Oreo fosse uma amiga nossa que nos está a mostrar as peripécias bizarras da sua família com uma dose gigante de humor. É um romance simplesmente engraçado, com ironia e sarcasmo ao mesmo tempo que se faz uma sátira da sociedade que, apesar de ter sido escrito em 1974, podia ser um livro de hoje.

Deixem-me que vos diga uma coisa: as minhas pessoas literárias favoritas são mulheres. E as minhas mulheres favoritas são as inteligentes e independentes (Jane Eyre, Elizabeth Bennet, Madame Bovary... a lista é infinita). E tenho uma nova categoria de mulheres favoritas: as inteligentes, independentes e divertidas. Acho que estou apaixonada por Oreo, pela forma como ela lida com as situações. Há um episódio em que ela mete um anúncio no jornal a pedir um emprego e liga-lhe um suposto médico que a quer contratar como assistente mas, antes, quer fazer-lhe um teste pelo telefone: O teste consiste em dizer a cor da sua lingerie, as palavras calão que ela conhece para o acto de fazer sexo, como é que se excita e um rol de perguntas depravadas em que Oreo, com 16 anos, percebe logo que ele é um tarado mas continua o jogo dele e pede-lhe para ir ter com ela, dando a morada da sua vizinha do lado ninfomaníaca e pregando um grande susto ao tarado.

Todo o elenco deste romance é extremamente peculiar e improvável, o que lhe dá mais piada: um pai judeu desaparecido que tenta tornar-se um grande actor na Big Apple, uma mãe negra, também ausente, que anda em digressão pelo mundo com o seu talento musical e obcecada em equações matemáticas, uma avó materna que tem uma forma de falar própria e troca as palavras todas, um avô materno que, ao saber que a filha ia casar com um judeu, teve um ataque e ficou paralisado (passa metade do romance como uma personagem secundária paralizada numa cadeira mas que vê tudo), um irmão que fala a cantar, uma vizinha ninfomaníaca... Todo este grupo de personagens são altamente únicas, divertidas e interessantes, tornando este livro um entretenimento do início ao fim e que podia ser um bom piloto para uma série de televisão.

E mais: digo-vos que é um livro que todas as raparigas deveriam ler e todas as mães deveriam oferecer às suas filhas. Acredito que, enquanto crescemos, todas precisamos de boas influências. E Oreo é uma heroína feminista sábia para a idade, resistente às situações da vida e que na sua missão (a procura pelo seu pai) leva tudo com humor, ensinando-nos a viver a vida de uma forma absolutamente única: a rirmo-nos de tudo.

É interessante também sabermos que, quando Fran Ross o escreveu, este livro foi imediatamente esquecido e não teve sucesso, considerado um livro à frente do seu tempo. Nos últimos anos, tornou-se uma leitura de culto e uma das obras-primas da escrita humorística do séc. XX.

Oreo de Fran Ross, publicado por Antígona Editores. Foi publicado em Portugal (e traduzido) no mês passado e já está à venda na Fnac online.

2 comentários

  1. Parece interessante! Obrigada por partilhares :)

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  2. Nunca tinha ouvido falar deste livro e depois de ler o teu post, fui procurar informações e é mesmo um livro de culto. Estou super curiosa para o ler. Dirias que se pode tornar num "clássico"?
    Beijinho
    Joana

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