Porque é que as mulheres são tão más umas para as outras?

27 de maio de 2016


Eu estou sempre a bater na tecla de que não nos devemos atacar umas às outras em qualquer que seja o contexto: pessoal, profissional, social, o que quiserem. Porque estamos a perpetuar a eterna guerra entre mulheres. Não estou com esta lenga-lenga a dizer que também não dou por mim, numa altura ou noutra, a criticar alguém. Claro que sim. Sou humana, digo mal, critico, brinco, rio-me. Mas não de uma forma que possa fazer qualquer outra pessoa sentir-se mal.

Competitividade VS maldade

A psicologia vai dizer que as mulheres são competitivas, é verdade. Mas há uma grande diferença entre competitividade e bullying feminino. Os homens também são competitivos e dificilmente vão ser brutalmente maldosos uns com os outros da forma (in)consciente e deliberada com que as mulheres o são.

E a minha única questão é: porquê?

Quando desenvolvemos o Vive a Tua Beleza, eu queria que o projecto fosse fotografado por um amigo cujo trabalho a fotografar mulheres eu gostava. Mas aceitei que fosse feito por uma fotógrafa amiga de uma das embaixadoras. Não foi minha escolha, não lhe pedi para o fazer, não senti que tivesse sido qualquer favor. A senhora queria ir à TV e não teve essa oportunidade. E depois bloqueou-me em todas as suas redes sociais. Porquê? O que de tão grave lhe poderei eu ter feito se apenas estive com ela 1 ou 2 vezes na vida e respeitei todo o seu trabalho?

Há quem diga que faz parte do ADN das mulheres competirem umas com as outras. O Huffington Post diz que nos transformamos em demónios pelos homens, pelo trabalho, por atenção, por reconhecimento e auto-estima. Por coisas que podemos realmente ganhar e coisas que nunca vamos ganhar. Diz que vamos lançar punhais silenciosos sobre questões tão mesquinhas como roupa e faux pas sociais. Eu vou mais longe: por likes no Instagram, por blogues, por A ter recebido aquele saco de maquilhagem e B não, porque X disse que Y é uma cabra e Z acreditou.

Bullying no universo dos blogues

Já sofri bullying de todo o tipo. Na faculdade, tive colegas a encetarem campanhas de ódio contra mim apenas porque eu não ia muito às aulas, tirava 18's e isso era impossível vindo de uma miúda (eu) que se vestia com tops cor-de-rosa. No trabalho, tive colegas a tentarem fazer de tudo para eu ser despedida, apenas porque o meu trabalho podia ser melhor que o delas. Já ouvi histórias mirabolantes a meu respeito. Já fui puta, já fui arrogante, convencida, snob, com a mania que sou melhor que os outros. Eu já fui de tudo vindo de todos os que não me conhecem. Sempre que estou com amigas, ouço histórias horrorosas de mulheres contra mulheres, desde o contexto profissional até quando envolve homens. Em que momento é que nos tornámos tão más?

Entrar no universo dos blogues só me deixou mais alerta e sensível para esta questão. Porque é que as bloggers abrem guerra umas às outras? Porque é seguem, deixam de seguir, voltam a seguir e a deixar de se seguir no Instagram mas estão lá sempre a ver o que a outra está a fazer? Porque é que no jogo de "o meu blog é melhor que o teu" envolvem marcas e agências em guerras pessoais que vão muito para lá de trabalho? Há uns tempos, vi comentários por todo o lado contra uma rapariga do Snapchat. Eu também me ri, fui ver os snapchats, achei hilariante mas não pensei mais no assunto e segui com a minha vida. Mas, de repente, no Facebook, havia toda uma campanha contra ela. E até podiam ter razão. Mas é bullying. Eu também vejo A, B e C com likes e seguidores comprados mas e então? Não podemos fazer nada. Apenas continuar a fazer o que gostamos e acreditar que, um dia, este mercado vai ser mais transparente. 

E isto só me faz concluir uma coisa: as mulheres sentem-se tremendamente ameaçadas pelo sucesso das outras.

Medo do sucesso das outras?

Sempre que vejo alguém a atingir um patamar que eu também gostava, não fico invejosa. Posso até ficar um pouco. Posso reclamar, queixar-me, bufar... Mas, cá dentro, fico é feliz porque é sinal que, se ela conseguiu, um dia também vou conseguir. É sinal que também há espaço para mim. O que eu faço é usar esse sentimento de inveja de uma forma saudável para melhorar as minhas capacidades, para estar continuamente a progredir, para conseguir lá chegar... onde quer que seja.

Não consigo imaginar a Beyoncé a perseguir que nem louca o Instagram da Rihanna para ver o que ela ganhou. Ou a Natalie Portman a dizer mal da Blake Lively porque ela foi a Cannes. Ou, vá, entrando aqui no nosso pequeno universo, a Cláudia Vieira a criticar a Luísa Barbosa porque ela está na capa da Activa este mês. Quanto mais conscientes e tranquilos estivermos com o nosso valor, menos tempo vamos perder a ruminar contra terceiros.

É preciso separar as águas: por não gostarmos, ou não nos identificarmos, com o blogue/o trabalho/o estilo de vida de alguém, não podemos levar nada para o lado pessoal. São apenas gostos diferentes que não interferem no nosso caminho.

Se perdêssemos tanto tempo a melhorar as nossas competências como aquele que perdemos a criticar e a dizer mal das outras mulheres, o mundo era um lugar melhor. Ou, pelo menos, com pessoas mais capacitadas.

14 comentários

  1. nesta fase da vida já não me sinto tão afectada com o bullying, porque se calhar diminuiu ou não me ponho numa posição frágil para o receber. mas uma coisa é certa, se o recebes e se dizem "mal" de ti é porque, sim, sentem-se ameaçadas pelo teu sucesso, e isso pode ver-se como algo de positivo, mesmo que num contexto negativo.
    e infelizmente, está na nossa natureza sermos más uma para as outras, apesar de ser uma característica que se pode combater com um aumento de auto-estima!

    adorei o texto!

    beijinho,
    Moi by Inês

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    1. Eu percebo e infelizmente também acho que está no ADN das mulheres, mas temos de o combater.

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  2. Este texto podia perfeitamente ser meu, sinto tanto isso...
    Chego, por vezes a por em causa a minha pessoa, porque se existe assim tanto odio só posso ser uma pessoa mesmo horrível....mas depois analiso as coisas e não vejo nenhuma justificação aparente, deve ser só a minha cara! Felizmente já vivo bem com isso!

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    1. ahah "deve ser só a minha cara". Basta uma pessoa estar de bem com a vida para já ser "odiada" por quem não está. A única diferença é que as mulheres expressam de uma forma muito mais agressiva essa inveja. É aí que temos de trabalhar. Vivermos bem com isso, como vives, já é um passo :)

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  3. Como eu gostei de ler este teu post :) E mais não digo!

    MY KIND OF JOY

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  4. A maldade entre mulheres é uma das armas de um sistema patriarcal e machista: enquanto estivermos ocupadas a lutar umas contra as outras mantemo-nos cegas para o verdadeiro problema. Um bom exemplo é aquela tendência para culpar a "outra" num caso de traição, mas há mais. Há um blog que costumo acompanhar que tem uma bela coleção de haters, que atacam constantemente a blogger com comentários machistas como "só tens essa vida porque tens um marido rico" ou "as mulheres da tua nacionalidade são todas putas". Como é que ela lhes responde? Diz que são mal comidas e que têm falta de louça para lavar. Entristece-me tanto ver machismo rebatido com machismo, de mulheres para mulheres. Faz falta aprendermos o conceito de sororidade.

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    1. Que horror.. mas quem é que perde tempo com esses comentários? O nossos sistema patriarcal continua a fazer com que as mulheres se virem contra elas própria, exactamente como referiste nas questões de traição (e até já falei sobre isto aqui) - as mulheres vão sempre culpar a outra, ela é que é uma grande puta. Temos muito, muito, muito que aprender e mudar na nossa sociedade!

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  5. É tão triste ser obrigada a dar-te razão... é mesmo uma pena que as mulheres continuem a perpetuar o machismo. Alimentamo-lo, damos espaço a que os homens continuem a desrespeitar-nos como pessoas (e a ver-nos como objectos de seu uso a bel-prazer), quando somos as primeiras a atacar outras mulheres a troco de nada. Acredito que o machismo e a "inveja" dos feitos de outras mulheres esteja, não no nosso ADN, mas nas nossas cabeças - e que nos é imposto pelo sistema patriarcal de que falas. Sofremos tantas exigências diárias, seja porque temos que corresponder a padrões de beleza impossíveis ou porque temos que provar-nos o dobro nos nossos trabalhos para sermos respeitadas, que a insegurança de sermos atacadas acaba por ser reflectir nessa maldade contra quem atingiu aquilo que esperam que atinjamos também. Não justifica, claro, mas acredito que existem as mulheres realmente "más" e aquelas que, sem querer, pela força da exigência machista da sociedade, têm atitudes más numa índole boa.
    Nada me deixa mais feliz do que ver mulheres como tu, seguras de si, bem sucedidas, a falar destes temas na blogosfera portuguesa. Tens voz, e acredito que podes ajudar a abrir mentalidades e a melhorar o mundo. Nem que seja mudando apenas a forma de pensar de uma mulher, levando-a a ter mais cuidado e a policiar-se na forma como lida com outras, ou fala de outras, daqui para a frente. <3

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  6. De facto é muito comum falar-se mal só porque sim. A terna guerrinha das mulheres que não entendem que ganhariam muito mais se se unissem em vez de criticarem. E sim, só o fazem porque há algo na mulher que esta tem e que no fundo queriam ter. Vê-se pelo teu caso. Criticavam-se pelos 18's. É tão triste esta mentalidade.

    http://lifeworklive.blogspot.pt/

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  7. Esta é a razão pela qual sempre tive muitos mais amigos homens do que mulheres. Os homens sempre me pareceram mais unidos, mais felizes com as vitórias dos amigos e até é uma boa desculpa para uma saida de copos, quando falam mal é na frente e normalmente em forma de gozo, identifico-me muito mais com isto do que estar sempre rodeada de mulheres que estão constantemente a cortar na casaca da outra, ou dizem coisas como "Essa blusa nova faz te mais gorda" só porque invejam a blusa nova da amiga. É um mundo mesquinho e egoista que nao quero fazer parte.

    Por não gostar da atitude de várias mulheres ao longo da minha vida, acabei por ter aquelas poucas amigas do coração que estão sempre lá, que elogiam quando fazemos algo bonito, que nos aplaudem quando conseguimos o que tanto queriamos. Não minto, também falamos de outras meninas pelas costas e fazemos piadinhas, mas não sei, faz parte e no fundo não prejudicamos ninguém, nem andamos a deixar mensagens ou comentarios estilo haters.

    Penso que quanto mais elogiares, quanta mais energia positiva passares, mais coisas boas acontecerão na tua vida. Cingir ao que realmente importa e parar de utilizar o nosso tempo a ser bitchy para as outras miudas vai nos aumentar o tempo para o que nos faz sorrir e felizes.

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  8. Eu sei que não te conheço pessoalmente, mas não consigo deixar de pensar que te conheço um pouco ao vir aqui ao blogue. E depois venho cá e bato-te palmas de pé! Tu és grande! Concordo a 3000%!!! Quem me dera que muita gente que eu conheço lesse este texto! :P
    Parabéns e pff não pares! :)
    _Ela.

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  9. os homens são iguais mas valorizam e sentem inveja de coisas diferentes!

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  10. Comecei a acompanhar-te à relativamente pouco tempo e adoro o que escreves. Este texto faz todo o sentido mas o mais engraçado é que eu tive uma experiência, há mais de um ano, em que as minhas colegas eram super porreiras. Ajudaram-me bastante ao contrário dos meus colegas homens.
    Fiquei agradada pois foi a primeira vez que tal aconteceu.

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