O AMOR É OUTRA COISA #34 Como fazer o luto de uma relação falhada

9 de fevereiro de 2016


Terminar uma relação pode ser o fim do mundo. Ou, pelo menos, o fim do nosso mundo e da forma como o conhecemos. É como uma experiência de quase-morte em que nos sentimos à beira do penhasco e, quando estamos prestes a saltar, vemos a luz lá no fuuuuundo do túnel (eu sei que penhascos e túneis não fazem sentido, mas perceberam a analogia). Eu sempre chamei estas fases como a fase do luto.

Choramos, gritamos, temos raiva, entramos em negação, achamos que a relação se pode voltar a resolver e tentamos que a outra pessoa também o perceba - e às vezes tornamo-nos psicopatas: olá mensagens com testamentos que depois nos vamos arrepender. Algures pelo meio, então, acabamos por aceitar. Nessa altura, vemos muitos filmes sozinhas na cama, ouvimos muito jazz, blues, lemos imensos livros e fazemos maratonas de séries. Simplesmente porque precisamos de voltar a colar os cacos da nossa vida. E isso tem de ser feito interiormente até chegar o dia em que, acordamos, e a primeira coisa em que pensamos não é a outra pessoa. De repente, o sol já brilha, já nos apetece dançar, comer, sair. Conseguimos respirar fundo e perceber que chegámos finalmeeeeente ao fim do túnel. E, sim, lá está a luz.

O luto terminou.

Como cada pessoa vive esta fase de sobrevivência emocional já é muito particular. Há quem faça todo o roteiro filmes-jazz-livros-séries, como eu. Há quem vá para os copos e acorde, cada manhã, em camas diferentes. Há quem faça uma viagem sozinho. Há quem entre numa nova actividade. Há quem arranje um trabalho extra para estar ocupado. Há quem escreva um livro. Há quem apague todos os seus registos das redes sociais... a lista é infinita. E este luto pode demorar, sei lá, uma semana, um mês, um ano, uma vida... vai depender do tempo que cada pessoa demora a sarar as suas feridas interiores.

E é aqui que quero chegar: sarar as feridas interiores. E isto tem de ser feito sozinha. Temo em dizer que muitas mulheres vivem toda uma vida a serem magoadas porque são emocionalmente dependentes de outra pessoa. E melhor que fazer um luto e esperar pela tal luz é enterrar tudo o que nos magoa e ocupar esse buraco rapidamente. Porque esta espera é a pior parte. É o que dói mais. Mas não se pode passar de uma experiência de quase-morte para uma nova pessoa em três tempos. Perdoem-me quem o faz mas não consigo ver futuro em relações que nascem de cacos e de fragilidades. Sermos vulneráveis leva a relações vulneráveis. Porque ao invés de atrairmos alguém pelas nossas forças, atraímos pelas nossas fraquezas. 

Os meus lutos sempre foram demorados. Há quem me ache parva - porque fico a chafurdar na depressão - mas eu sempre preferi lidar com as minhas dores sozinha. Perceber com os meus erros. Compreender as minhas falhas. E entrar em novas relações de alma vazia. Com as malas desfeitas e a roupa arrumada no roupeiro, por assim dizer. Não gosto de carregar bagagens - embora tenhamos malas e malinhas que nos seguem para todo o lado.

Terminar uma relação pode ser, e é, o fim do (nosso) mundo. Mas são momentos de reflexão sobre quem somos e não deveriam ser usados a colar buracos com outras pessoas e relações. Há 3 coisas importantes nesta fase:

  • Dar tempo ao tempo e ter paciência: O luto é um processo em que aprendem a estar convosco próprias, compreendem o que falhou naquela relação e, normalmente, é quando se vão apercebendo do que gostam, o que querem e o que não vão repetir. Este processo pode ser bastante leeeento. Às vezes, basta voltarmos a ver a outra pessoa para revivermos tudo novamente. Mas é por isso que têm de ter paciência - o coração e a cabeça têm de voltar a estar em sintonia.
  • Não ficar agarrado aos "e se": E se tivessem feito as coisas de outra forma, a relação não tinha acabado. Se tivessem ido àquele jantar, se tivessem feito aquela viagem, se tivessem sido menos possessivas, se tivessem sido mais flexíveis, se, se, se... A vida é feita de "e se's" a toda a hora mas a verdade é que não os conseguimos controlar. Não colocar todo o peso do fim da relação do vosso lado é o primeiro passo para seguir em frente.
  • Acreditar que nada acontece por acaso: Este é o meu mantra, por mais clichê que seja. E há aprendizagens e um crescimento emocional a retirar destas situações que nos vão levar a outros sítios na vida. Quanto melhor se conhecerem e aprenderem com as experiências falhadas que vão vivendo, melhores decisões vão saber fazer no futuro e evitar desilusões e sofrimentos acrescidos. 

7 comentários

  1. Cada final de namoro fortalece-me a certeza de que não conseguirei passar por isto muitas vezes. Faz-me uma confusão imensa que uma pessoa possa ser tudo na nossa vida hoje e amanhã pouco ou nada (e eu prefiro sempre que seja nada, pior que uma "clean break" é ficar amiga de quem já amei). Para mim, a seguir à morte, é uma das coisas mais difíceis de entender.

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    1. Percebo o que dizes Nádia... é estranho conviver com pessoas que, um dia, nos foram tudo e com quem partilhámos uma vida. Mas a verdade é que manter a amizade acaba por ser uma permanência dessa ligação. Claro que ela não vem após a ruptura. Às vezes demora meses, anos, até conseguirmos chegar ao estado da amizade. Mas quando nos "desligamos" da outra pessoa, é mais fácil vê-la como amiga, porque se partilharam coisas intimas, sonhos, objectivos, medos, vivências... e podem-se continuar, então, a partilhar em separado mas sabendo que aquela pessoa vai sempre torcer por nós.

      E, acredita, vais sempre ficando mais forte. O ser humano tem uma capacidade brutal de se reinventar e não importa quantas vezes sejamos magoados, conseguimos sempre voltar a sorrir :)

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  2. "Sermos vulneráveis leva a relações vulneráveis. Porque ao invés de atrairmos alguém pelas nossas forças, atraímos pelas nossas fraquezas." WOW!

    Não percebo porque é que as tuas frases ainda não estão a circular pela internet. São melhores que as do Pedro Chagas Freitas :D

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    1. Ah ah ah tão verdade. Helena, pensa nisso. O Pedro Chagas Freitas não diz nada de jeito a não ser baseado em clichés depressivos. Tu passas mensagens com as quais as pessoas se identificam (eu, por exemplo, e pelo que leio não sou a única).

      Beijinho :)

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  3. gostei muito, apesar de comecar a lacrimejar logo no primeiro parágrafo

    beijinho,
    Moi—byInês

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  4. A cabeça e o coração têm de estar novamente em sintonia. Tão verdade :-) Adorei.
    Beijinhos

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  5. Me fizestes lacrimejar já no segundo parágrafo...
    Também sou dessas que lida com a dor sozinha, com maratonas de filmes, séries, músicas altamente depressivas, poesias e uma boa xícara de café. Às vezes é tranquilo, às vezes dói de uma forma inexplicável (e sempre que isso acontece me lembro daquele teu texto "doem-me as entranhas"). Às vezes escrevo para exorcizar os sentimentos, às vezes prefiro ficar calada. Às vezes choro copiosamente. Mas essa fase do luto é mesmo um dos piores sentimentos que podemos vivenciar - mas que, infelizmente, é extremamente necessário para sermos o que somos hoje. E um dia passa... Sempre passa
    Saudades de ti e de Lisboa <3

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