o amor é outra coisa #25 As mulheres conhecem mulheres que conhecem mulheres e descobrimos tudo

30 de novembro de 2015


No fim-de-semana, fomos sair.

Juntámo-nos todas em casa da Cátia, petiscámos, falámos, dissemos mal dos homens que conhecemos, reclamámos dos trabalhos - menos eu, que isto de ser escritora é literalmente o trabalho da minha vida - e trocámos ideias sobre tudo e sobre nada. Que é basicamente o que as mulheres fazem quando estão juntas.

Tudo parecia ser uma noite completamente banal mas a vida dá voltas bastante interessantes. Eu conheci a Cátia através disto dos blogs. Comigo estava a - vamos criar números para todas para não haver muita exposição - amiga 1, que trabalhou comigo e a amiga 2, das minhas amigas de infância. Elas as três conheceram-se umas às outras através de mim e - porque eu só conheço pessoas boas - houve um click entre todas. Isto para reforçar a ideia de que não há histórico nem muitas ligações entre elas e o que acabou por acontecer foi... sei lá, destino - por mais estúpida que esta palavra seja.

Então, retomando a narrativa, estávamos a jantar e a amiga 1 fala-nos do - vamos chamar-lhe assim - Traidor Além-Fronteiras, um tipo que ela conheceu no verão e com quem passou umas semanas de sonho. Foi tudo tão intenso que, no outro dia, ela tatuou uma frase que ele lhe escreveu - com a letra dele. E antes que comecem já a atacar, a frase era algo do tipo "tudo é eterno enquanto dura", que neste caso fazia sentido para os dois: ele porque perdeu os pais para o cancro e ela porque já passou, duas vezes, por essa doença. E esse foi o elo de ligação entre eles que acabou por tornar aquela relação tão forte. Mas, bem, o Traidor Além-Fronteiras não trabalha em Portugal e, em Setembro, regressou para o fim do mundo e o romance ficou em stand by. Não havia exclusivamente um acordo de fidelidade mas, vamos ser honestas, ficou ali qualquer coisa implícita que levava a trocas de mensagens, conversas via Skype e longas expectativas para Dezembro - a altura em que ele ia voltar por mais um mês.

E estes romances à distância são difíceis mas, por outro lado, criam imensas fantasias na nossa cabeça que acabam por alimentar o tempo e tornar-se tão violentas e intensas. Era exactamente assim que a minha amiga 1 estava: sozinha, a fantasiar com esta relação e com tudo o que iriam viver quando ele regressasse.

"A minha amiga Sofia - vamos chamar-lhe Sofia, um nome fictício - também estava a trabalhar no fim do mundo, na mesma cidade que o Traidor Além-Fronteiras", disse a minha amiga 2 a meio do jantar.

A Sofia é uma amiga da minha amiga 2 e que, há três meses, foi trabalhar para o mesmo sítio e teve lá um affair, podemos chamar-lhe assim, com um português que ela conheceu.

A minha amiga 1 pega no telemóvel, entra no Instagram, rola pelo iPhone e mostra à minha amiga 2 uma fotografia do Traidor Além-Fronteiras.

Silêncio constrangedor.

"Esse é o tipo da Sofia" - gritou a amiga 2.

Quais as probabilidades da minha amiga 1 vir a conhecer a minha amiga 2 que conhece a Sofia que, no fim do mundo, se envolveu com o Traidor Além-Fronteiras que, voltando ao início do ciclo, estava inicialmente com a minha amiga 1?

Todas as pessoas entram na nossa vida por alguma razão. Nada - mas nada mesmo - é acaso.

Eu sou sempre a favor da honestidade - em qualquer circunstância. Mesmo que doa. Mesmo que assuste. Mesmo que faça a outra pessoa dar-nos um pontapé no rabo. Para mim não há áreas cinzentas, apenas preto e branco. Ou se quer, ou não se quer. Ou se gosta ou não se gosta. Eu não gosto assim-assim. Quando eu gosto, gosto mesmo. Muito ou pouco, mas gosto. Não gosto para sempre, mas gosto agora, que é o que interessa. E, lá está, tudo é eterno enquanto dura.

Pode-se gostar e, neste caso, como existe distância e todo um oceano a separar, ser-se honesto e contar-se o que se anda a fazer. É verdade que, muitas vezes, ocultar-se coisas até pode ser viável. Não vale a pena magoar-se alguém com verdades que ficaram para trás. Mas essas verdades podem vir ao de cima - como aconteceu - e estragar-nos a vida. Eventualmente, ele não lhe quis contar o que andava a fazer no fim do mundo porque não era relevante para o que poderiam vir a viver novamente em Lisboa. E, quando se está sozinho noutro país, é mais do que legítimo que se crie conexão com outras pessoas e haja azo a traições. O ser humano não foi feito para ficar sozinho. Nós procuramos - mesmo que inconscientemente - o conforto das outras pessoas.

Nessa noite, arrancámos para o Radio Hotel onde nos encontrámos com... a Sofia, que entretanto já voltou para Lisboa. E que contou que, lá no fim do mundo, a coisa não correu bem porque ele também andava com outra portuguesa por lá (não vou focar-me em toda a parte de, afinal, ser um idiota, isso já são outros andamentos).

Estão a ver aquele momento em que tudo se estilhaça dentro de nós? Em que cai a ficha. Em que a outra pessoa, de repente, e aos nossos olhos, deixa de parecer perfeita? Em que o encanto morre?

Tudo isso acontece quando a desilusão é maior que a paixão. Ele poderia simplesmente ter sido honesto com a minha amiga 1 - dizer-lhe que queria estar com ela quando voltasse mas que, sozinho noutro país, poderia vir a estar com outras pessoas. Ela poderia aceitar ou não aceitar - mas ele teria feito o papel dele.

A minha mensagem de hoje - já perceberam qual é, certo? A honestidade é uma das maiores armas que temos nas nossas relações. Dêem-lhe uso - mesmo que custe.


8 comentários

  1. Essa história parece-me demasiado rebuscada para ser verdade...

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Todas as crónicas d'O Amor é Outra Coisa são reais e inspiradas em factos reais. Todas as pessoas intervenientes (eu ou outras pessoas) dão o seu aval antes de serem publicadas :)

      Eliminar
  2. Todas as pessoas entram na nossa vida por alguma razão. Nada - mas nada mesmo - é acaso.

    É tão verdade! Adorei e de certeza que a tua amiga 1 está melhor agora que já sabe a verdade :)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. De certeza que está melhor. Porque pior do que sermos enganados é vivermos numa ilusão :)

      Eliminar
  3. Só que é tão mais fácil mentir e esconder do que contar a verdade. E muitas vezes, quando somos honestas os homens também não percebem e assustam-se pfxxx!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. É verdade, muitos homens assustam-se com a honestidade. Porque se gostamos, fogem porque gostamos. Se falamos, fogem porque falamos... não é fácil :)

      Eliminar
  4. esta história é verdadeira????

    ResponderEliminar
  5. porque é que nao escreves um romance?? ia ADORAR lê-lo, estas histórias que tu escreves fazem as pessoas "atropelar" as palavras só para chegar ao fim e perceber o desfecho, és um excelente escritora :)

    ResponderEliminar

Latest Instagrams

© the styland. Design by Fearne.