Entregar parte do meu IRS à faculdade onde estudei? Está tudo louco?

7 de maio de 2015








A ideia é do Partido Socialista e saiu ontem no Público.

Quando eu acho que os políticos não se vão lembrar de medidas mais estúpidas, claro que eles se lembram. A imaginação destes senhores é imbatível. Não sei como é que não trabalham a fazer guiões de telenovelas.

"Esta medida visa premiar cada instituição pela capacidade de gerar valor em Portugal dos alunos que formaram", lê-se no relatório de 95 páginas que vai servir de base para o programa eleitoral do PS.

Mas eu paguei propinas anuais que ascendiam aos quatro dígitos durante quatro anos para uma licenciatura no ensino público - isso não é já premiar a instituição por me ter formado? Nos países nórdicos, os estudantes são pagos pelo governo para estudar. Licenciaturas? Mestrados? São gratuitos e o estudante ainda recebe uma bolsa para se poder movimentar enquanto estuda. Pagarmos não é já um prémio suficiente? Cada estudante dinamarquês recebe, do governo, uma bolsa de 700€/mês durante seis anos para estudar. Este apoio financeiro não tem de ser devolvido. Os que tiram boas notas recebem pagamentos extras. O que é que eu recebi por ter acabado com uma média acima da... média? Palmadinhas nas costas.

Esta proposta não pressupõe a cobrança “de mais uma taxa adicional sobre os alunos”, mas sim a canalização “não voluntária” de uma parte do imposto para os antigos estabelecimentos de ensino superior.

Estão a gozar comigo? Não é uma imposição? Não é uma taxa? É apenas uma canalização não voluntária? O PS toma-nos por tão estúpidos assim que, com este palavreado todo, espera conseguir confundir-nos?

O salário de um aluno licenciado é cerca de 70% superior ao salário de alguém que tem apenas o 12.º ano. Isto significa que o facto de as pessoas passarem pela universidade cria um valor nelas próprias, que gera um retorno para os cofres do Estado, porque pagam mais IRS”.

Mas é isto que acham mesmo que nós recebemos? Se calhar, os senhores do PS deveriam vir para o pé de nós e trabalhar connosco para perceberem quanto é que ganhamos realmente. Porque se alguém conseguir ganhar 700€/mês neste momento é milionário. Mas um trabalhador da Zara, a full-time, recebe facilmente 600€. E não vai entregar uma parte do seu IRS a nenhuma universidade.

As questões práticas “têm que ser estudadas”: a consignação poderá realizar-se “nos primeiros dez anos [após a saída do ensino superior] ou ao longo de toda a vida contributiva”.

Eu saí da faculdade em 2008. E há 7 anos que procuro um emprego estável. Como é que querem que os jovens paguem nos primeiros 10 anos quando andam a saltar de estágio em estágio feitos idiotas? Quando lhes propõem ordenados de 700€ apesar de terem mestrados mas uma renda de uma casa em Lisboa não é menos de 600€? Quando lhes oferecem estágios com ajudas de custos para transportes e alimentação? Quando trabalham anos e anos a recibos verdes? Quando são freelancers e têm de mendigar por trabalhos ao fim do mês para poder comer?

Será que ao fim de tantos anos, não conseguimos realmente aprender nada com os nossos vizinhos nórdicos, como Dinamarca, Suécia, Noruega, Finlândia...?

Operacionalizar a medida em termos informáticos “não seria uma coisa difícil”. “Quando entregassem os diplomas aos alunos, as universidades poderiam pedir o Número de Identificação Fiscal (NIF) e enviar para o Ministério das Finanças”.

Até para receber o meu diploma de licenciatura tive de pagar, sei lá, 200€. E o do mestrado idem. Porque razão vou dar o meu NIF para me roubarem mais nos próximos 10 anos quando já me roubaram tanto durante o tempo em que frequentei duas universidades em Lisboa? Em que paguei propinas absurdamente caras, em que os meus pais fizeram um esforço tremendo para me conseguirem providenciar esse dinheiro anualmente, em que comprei livros, paguei taxas por exames e, no fim, ainda paguei para receber um certificado de habilitações?

Tenho vergonha, pena, tristeza, ódio (e tantos outros sentimentos) por viver num país que se enterra dia após dia, fechado na sua bolhinha de conhecimento dúbio com deputados que andam de BMW's e se sentam na Assembleia todas as manhãs a jogar o Candy Crush no Facebook enquanto discutem a brincar medidas de governação do seu país de Pollypockets.

12 comentários

  1. Gostei particularmente da "canalização não voluntária"...ridículo. No entanto, reparei que mencionas governo isto, governo aquilo quando a proposta é do PS que (ainda) não está no governo.

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    1. Sim, esta proposta é do PS mas, ao fim e ao cabo, podemos referir-nos ao Governo no geral porque quando não é esta proposta, é outra...

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    2. Se estamos a falar de uma medida em particular apresentada pelo PS - partido da oposição - é completamente errado mencionar uma outra entidade como sendo responsável (mesmo que haja outras medidas do actual governo que possam vir a ser tomadas e que sejam erradas). Sendo tu jornalista, não fica bem teres informação incorrecta num post que até tinha um ponto de debate interessante.

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    3. Esta é uma medida do PS, está explicito, da oposição. Eu refiro-me sempre ao partido da oposição no post inteiro. Apenas quando faço uma observação relativa à forma como somos tratados é que refiro o Governo enquanto instância máxima. Não está informação incorrecta em lado nenhum, acho eu, é apenas um desabafo sobre a forma como os deputados acham que podem por e dispor, sobre a forma como alguém um dia acorda, tem uma ideia disparatada como esta e a coloca em prática numa proposta absurda. Não creio ter errado, ou ter passado informações erradas...

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    4. Já efectuei a alteração porque, estando mal explícito, não quero que os leitores entendam o contrário :) Obrigada.

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  2. Fiquei chocada com a bolsa de 700€ na Dinamarca. Eu sabia que não se pagava para estudar mas não fazia ideia de que ainda havia uma bolsa. Que vergonha a situação em que vivemos. Identifico-me com tudo o que disseste.
    Enfim...

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  3. Quando li essa notícia ontem ia morrendo. Estou neste momento a acabar o mestrado e já me fecharam muitas portas por ter "excesso de qualificações". Neste momento, em Portugal, somos praticamente obrigados a dizer que não estudámos para conseguir um emprego numa loja ou caixa de hipermercado, mas recebemos "70% acima da média" e temos de pagar à Universidade. Gostava de saber onde foram buscar esses dados, aos relatórios dos anos 90?
    Engraçado é imporem estas medidas quando ainda há uns meses andava tudo muito preocupado que cada vez menos alunos a candidatarem-se ao ensino superior. Ora porque será? Não me parece que isto vá ajudar. Enfim, estou muito irritada com isto tudo.

    Marta Rodrigues, Majestic xx

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  4. Se o PS chega ao governo, estamos todos literalmente (e perdoem-me as asneiras) fodidos.

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  5. O quê? Ai meu deus. Cada vez mais o país me dá razões para eu não pôr mais os pés lá. E sabendo bem o que vai acontecer nas eleições, estou mesmo para ver esta medida ir para a frente. Ao que já chegámos. Não podia concordar mais com o que disseste. Já pagamos proprinas (e nada baratas para o ensino que se te), taxas disto e daquilo por causa de mudanças de cadeiras, exames, e sabe-se lá mais o quê, e agora ainda nos querem fazer "voluntariamente" contruibuir com mais para as universidades? E ainda por cima quando temos um ensino que é uma desgraça. Honestamente, nem que as vacas tussam, eu não dou mais um centavo àquela faculdade. Ai meu deus, as medidas que inventam...

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  6. R: Felizmente percebi que assim não ia dar para continuar. Preciso de me valorizar mais e pensar mais vezes em mim! (:

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  7. Sim, o que eu mais quero é pagar à faculdade onde estudei depois de me terem chulado durante anos. Que medidas mais idiotas, não compreendo como é que estas coisas são possíveis de acontecer numa democracia e num país dito civilizado.

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  8. Hey very interesting blog!

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