Quando 800€ se tornou um ordenado de luxo A era dos estágios não remunerados para pessoas de 30 anos

6 de outubro de 2014



Muitos dos meus amigos que considero pessoas inteligentes, com capacidades excepcionais e que os imagino, algures na vida, a fazer um trabalho de excelência nas suas áreas estão desempregados. E muitos dos meus amigos com mestrados feitos noutros países da Europa e nos EUA, voltaram para cá e estão... sim, imagine-se lá, desempregados. Depois ligo a televisão e ouço o mesmo blá, blá, blá de sempre - "os jovens não querem trabalhar". Que jovens são esses? É que eu não os conheço. Ouço-os na TVI é verdade, como aquela da Casa dos Segredos do "nunca fiz nada na vida, não faço nem quero fazer".  Mas quero acreditar que esses representam uma percentagem mínima da nossa realidade.

Os que eu conheço, são aqueles que, com mestrados e doutoramentos feitos, aceitam trabalhar num café em troca de uns míseros trocos que os ajudem, ao final do mês, a desencantar forma de pagar as contas. Os que eu conheço são aqueles que vão a entrevistas, atrás de entrevistas, atrás de entrevistas, e nunca são suficientemente bons para ordenados de 600€. Os que eu conheço são aqueles com licenciaturas e mestrados em comunicação social, design, arquitectura ou políticas sociais e que são considerados, imagine-se lá outra vez, parasitas que não querem trabalhar.

Esta semana, uma amiga que tem um mestrado feito na Dinamarca, que já trabalhou no México e que fala 3 línguas, foi a uma entrevista para recepcionista de um Hostel. Não tenho nada contra recepcionistas, é um trabalho digno como outro qualquer. Mas quando lhe perguntaram o ordenado que esperava receber, ela chutou os 800€ já a subir a fasquia e disseram-lhe que, por esse valor, tinha de falar seis línguas. SEIS LÍNGUAS! Chegámos ao ponto em que 800€ é um ordenado de luxo nos dias de hoje mas um T1 em Lisboa não custa menos de 600€ por mês.

Vivemos na era dos estágios não remunerados e dos empregos pagos abaixo de cão. E, pior, vivemos na era em que qualquer empresa se sente no direito de contratar pessoas sem lhes pagar nada. Como se fosse uma coisa perfeitamente normal - Pagar? Vamos mas é contratar este idiota que está tão desesperado por trabalhar que acredita que daqui a três meses vai passar a contrato quando, na verdade, voltamos a contratar, de graça, outro idiota igual a ele. .

Fui a uma entrevista para uma publicação. E queriam que trabalhasse entre Outubro e Dezembro na criação dessa mesma publicação pro bono para depois, em Janeiro, passar a estágio profissional a receber 600€. Com 29 anos, já não tenho idade para estágios profissionais. Serei eu a única a achar isso?

Eu tento, juro que tento, compreender como é que estagiários não remunerados podem fazer com que uma empresa tenha um bom desempenho se não têm qualquer motivação para dar o seu melhor. Um dia destes, em conversa com a Silvana Querido (espreitem-na aqui), ela dizia-me que percebe que não há dinheiro e as empresas são obrigadas a contratar meia dúzia de estagiários que vão trabalhar abaixo de cão sem receber nada. É para crescerem e aprenderem, desculpamo-nos nós que vemos isto acontecer debaixo dos nossos olhos. Mas quando temos 30 anos, experiências diferentes, estudos, mestrados, um background internacional... oferecerem-nos um trabalho a custo zero ou miseravelmente pago, é esfregarem-nos na cara que tanto podíamos ser nós a estar ali como outra pessoa qualquer.

E todos nós crescemos a acreditar que um dia vamos marcar a diferença. Será Portugal um país destruidor de sonhos?


2 comentários

  1. Infelizmente, esta realidade vai durar. E eu sei quem é a pessoa que escreveu sobre o choque de quem recebe 500€. Só não sabia que para a sua revista com o marido estivessem a contratar sem pagar... Enfim, somos todos enganados e nem nos apercebemos...
    Bom post.

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  2. LOL sim, é verdade, 800 euros tornou-se mesmo um ordenado estupidamente luxuoso... este país enoja-me.

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