The freak show

4 de novembro de 2013



Ontem fui jantar com umas amigas de infância. O que é para lá de espectacular porque, nos dias de hoje, pouca gente mantém amigos durante tanto tempo. E estas não são as amigas com quem estou normalmente no meu dia-a-dia, mas são as minhas amigas mais antigas. Toda a gente cresce e segue a sua vida, faz novos amigos, cria novas cumplicidades, é normal. Mas nós continuámos a falar e a encontrar-nos de tempos a tempos. Nós, atenção. O nós é um grupo restrito. Porque na maior parte dos casos, as pessoas crescem e perdem tudo aquilo que aos 16 anos tinham em comum. Neste caso, quase 15 anos depois, continuamos todas a ter coisas em comum, embora uma seja arquitecta, outra médica, outra veterinária, outra hospedeira de bordo, outra enfermeira... e eu, a pessoa mais estranha que, para elas, tem um emprego de sonho.
«Recita-nos um poema», disseram-me 500 vezes durante a noite.
«Só nos vossos casamentos», respondi, entre risos. (eu não faço poemas, atenção. Estou longe de dominar essa arte. Mas elas acham que, por escrever sobre amor, estou apta a rimar sobre o amor.)
Mas é exactamente aqui que me quero focar. Ali estávamos nós, sentadas ao redor de uma mesa a falar sobre homens, sobre histórias antigas, sobre outras histórias de outras pessoas. E as conversas tinham de recair em mim. Porque uma mulher que ainda vive num romance de Jane Austen é um bicho num mundo onde toda a gente já vive com os seus amores de há mil anos. E eu fico feliz por elas. Porque acho que encontraram pessoas fantásticas. Mas eu não. E isso faz de mim um bicho estranho? Epá... não.
«Então e o Fábio?», perguntou-me a Vânia.
«Era phsyco, tentou sufocar-me no outro dia quando me encontrou no Lux», disse-lhe.
«Como assim? Que horror», respondeu. Pois, acontece.
«Porque eu não lhe liguei mais. Era um chato». C-H-A-T-O!
«Mas o que é que ele fez?», perguntou?
«Começou a lamber-me os pés no cinema». Argh.
«E o Carlos? Vocês estavam sempre juntos», voltou a perguntar.
«Olha... era um phsyco», disse-lhe.
«Outro? Mas porquê?», perguntou-me.
«Porque me ligou a perguntar o que é que ele não tinha. O que é que ele não tinha para eu não gostar dele», disse-lhe. E continuei: «E eu respondi-lhe que ele tinha tudo o que uma mulher procura, mas o amor não se força. Depois, foi morar para Barcelona e nunca mais me falou», disse-lhe.
«Que bizarro. E o Lucas?», perguntou.
«O que é que achas? Esse é o rei dos phsycos.»
E aqui já nos estávamos a rir à gargalhada, mas eu não acho tanta piada assim. Porque, para elas, é fácil dizer que sou uma eterna insatisfeita que vê defeitos em toda a gente. Eu não vejo defeitos em ninguém. Mas é muito raro encontrar alguém que me fascine e me prenda. E poucos homens estão dispostos, ou têm paciência, a darem-se a conhecer. A criarem romance. E também acho que poucas mulheres estão dispostas a isso. Num mundo cada vez mais pautado pelo sexo, procurar o amor tornou-se secundário. É tudo demasiado fácil. E demasiado rápido. Vivemos com uma urgência tão grande em viver tudo aqui e agora, que nos perdemos pelo caminho. E, no meu caso, os homens tornam-se pouco interessantes e acabam por não ter nada de novo para me dar. Nada que eu queira conhecer.
«Vou apresentar-te um amigo do meu namorado», disse-me a Tamára. «A sério, vamos jantar esta semana. Acho que vocês se vão dar bem e esqueces finalmente esse idiota de Madrid».
E este é o outro lado de se ser assim. Toda a gente tem alguém que acha que é perfeito para mim. Partilhei isto com alguns amigos (sim, homens!) e todos concordaram comigo. Disseram que sentem uma pressão escandalosa para se juntar com alguém porque todos à nossa volta começam a juntar os trapos e a mudar-se. E nós, nós somos os estranhos do circo.

4 comentários

  1. Bonito. E verdadeiro. Vale mais ser inconformado, ou não se contentar com qualquer coisa, do que viver na mediocridade. E, só isso, requer muita coragem.

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  2. claro que há «diferentes» perfeitos para alguém ;p mal fosse se existisse apenas UM ;)

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  3. "Porque, para elas, é fácil dizer que sou uma eterna insatisfeita que vê defeitos em toda a gente. Eu não vejo defeitos em ninguém. Mas é muito raro encontrar alguém que me fascine e me prenda." Julgo que se sentem melhor acreditando nisto, para não se questionarem se só estão com quem estão por conformismo, comodismo, porque "calhou" ou porque "se dão bem", ou pior, porque se não fosse agora, poderia não ser nunca mais...

    As pessoas querem sentir que emanam normalidade, que são um exemplo aos olhos dos outros, então passam-nos a batata quente. Ou pior, têm pena de estarmos super single. Que até tem as suas vantagens, sejamos realistas.

    Eu tenho 25 anos e nunca tive um relacionamento na puta da vida. E quase me enxovalham por isso. Como se houvesse algo de errado comigo por não me submeter aos encantos de alguém que supostamente os tem. Subvalorizam tanto mas tanto a paixão, no seu expoente épico e cinematográfico. Pergunta-lhes se quando chegam a casa, ficam com os joelhos a tremer, um sorriso imbecil e o coração a bater mais forte que alguém em speed. PENSE NISTO ahah \m/

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