Não temos saudades, é a saudade que nos tem

30 de setembro de 2013

Estava de costas, encostada ao bar, quando o vi. Olhava para mim, de sorriso nos lábios. Abracei-o. E rimos. Dançámos. Rodopiámos pela pista durante minutos, ou horas, sei lá. Ele agarrava-me, fazia-me rir, conduzia-me. Os seus braços encaixavam nos meus e dançámos. Dançámos como se ninguém estivesse a olhar para nós. Como se só nós os dois existíssemos. Agora que penso, não sei bem se dançávamos. Os nossos passos eram incertos, apenas rodopiávamos, abraçados, ao som da música. E ríamos. Tinha o meu cabelo colado na cara, colado ao pescoço dele, e ele tinha as mãos nas minhas costas nuas. «És tu», disse-me ele. «Sim, sou eu», ri-me. «Estás aqui comigo», disse-me. E beijámo-nos. Beijámo-nos como se toda a nossa vida tivéssemos esperado por aquele momento. As nossas bocas encaixavam, ríamos e batíamos com os dentes. Agora que penso nisto, parecíamos crianças. «Não acredito que isto está a acontecer», disse-me entre beijos. «Nunca acreditei que tu e eu pudesse acontecer. Gosto mesmo de ti». E eu não respondi. Beijava-o em resposta. Não queria perder nenhum sabor dele. Nenhum segundo. Queria tocar-lhe, abraçá-lo e dizer-lhe que era o homem da minha vida. Mas não disse. Queria dizer-lhe que também gostava dele. Mas não disse. E pegámos no carro e conduzimos durante muito tempo. Vimos o sol nascer e tomámos o pequeno almoço. Não queria perder nada dele. Novamente. Olhei para ele durante muito tempo. Passei os meus dedos nos seus lábios, nos olhos, no pescoço... queria absorver tudo. E parei à porta de casa dele. «Entra comigo», disse-me. E eu queria entrar. E queria deitar-me na cama dele. Queria abraçá-lo e senti-lo ao meu lado. «Não», acabei por dizer. E ficámos ali, encostados ao carro, com a chuva da manhã a cair-nos na cara. Abraçou-me e senti-lhe o coração por debaixo da camisa. Apaixonei-me novamente por ele nessa manhã. Apaixonei-me pela forma como despejou o açúcar no meu chá e como comeu dois bolos enquanto se ria sem qualquer motivo aparente. Apaixonei-me pela sua gargalhada. Apaixonei-me pelos seus braços que me envolviam as costas e pelos seus lábios que me interrompiam e terminavam as minhas frases. Apaixonei-me pelas pastilhas elásticas que trocámos na boca. E enquanto me afastava da casa dele, senti-me a pessoa mais infeliz neste planeta. Acabei por chegar a casa. Deitei-me e fiquei durante muito tempo a olhar para o tecto. 
Dizem que o que é fácil não vale a pena. Que amamos o difícil. Mas eu não queria viver mais uma relação cheia de impasses e medos. Uma relação pautada por quilómetros e obstáculos, em que somos tudo e não somos nada. Nessa noite, pensei se o poderia fazer feliz. Eu, que sou tão cheia de nada e tão cheia de vazios. E ele, que é tão cheio de tudo. Se calhar os opostos não se atraem. São tudo fantasias da nossa cabeça para nos mentalizarmos que podemos ser felizes com pessoas que sabemos que nunca nos vão fazer feliz.




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